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    MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS

    Por Karina Gouvea
    22/05/2009

    Denso, sombrio, perturbador, bizarro, trágico.... Esses são os termos mais adequados para definir Cidade dos Sonhos (Mulholand Drive), filme premiado de David Lynch que faturou US$ 7,2 milhões em 247 salas norte-americanas.

    Fascinado por histórias enigmáticas, Lynch manteve seu estilo de produzir filmes com gente estranha e situações improváveis, em meio a um labirinto que provoca discussões e um nó na cabeça de seus espectadores.

    Na primeira hora, Cidade dos Sonhos passa por um filme convencional, iniciando com um acidente de carro na estrada que dá nome à produção - Mulholand Drive (talvez um simbolismo ao choque de mundos diferentes?). No acidente, a personagem Rita (a ex-miss Laura Elena Harring) perde a memória e é ajudada por Betty Elms (Naomi Watts), uma aspirante à atriz de Hollywood, a descobrir sua verdadeira identidade.

    Em outra parte de Los Angeles, o diretor de cinema Adam Kesher (Justin Theroux, de Zoolander), forçado pelo que parece ser dois irmãos mafiosos, tem de escolher uma atriz específica para seu próximo filme. Pressionado, ele destrói o carro dos produtores e termina seu dia de cão surpreendendo a mulher na cama com outro.

    Seria uma trama linear se não fosse uma misteriosa caixinha azul. Ela é o elo e o pontapé inicial para a reviravolta da história dessas duas mulheres que fazem referência a estereótipos de Hollywood - Rita é a morena sexy e fatal, que adota esse nome ao ver um pôster de Gilda, clássico do cinema protagonizado por Rita Hayworth, enquanto Betty é a loira ingênua e sorridente que sonha ser uma estrela.

    É nesse ponto que os espectadores descobrem que nada é o que parece ser, questionando o que poderia ser realidade ou não na cidade dos sonhos (L.A.). O roteiro de Lynch propõe um quebra-cabeça, já que os personagens não são o que aparentam ser - tudo é uma ilusão - e a realidade se transforma em um pesadelo, ao som de Crying, em espanhol.

    Num cenário com escritórios cheios de poeira do centro de Los Angeles, mansões antigas subdivididas em apartamentos alugados, sets de filmagens e o morro que ostenta Hollywood em letras brancas, Lynch aproveita para montar sua atmosfera onírica, com personagens inesperados surgindo de repente e cenas aparentemente desconexas. Aparentemente, pois em determinado momento todo esse jogo de enganos convergirá para o entendimento do filme - completamente pessoal.

    Complexo? O enigma do diretor mexe com os sentimentos mais íntimos do espectador ao mostrar um universo cruel que exacerba suas emoções, mesclando imagens reais a situações bizarras, ao som de vozes melodiosas e da trilha sonora de Roy Orbison (Veludo Azul) e do maestro Angelo Badalamenti.

    A atuação da inglesa Naomi Watts (Flertando - Aprendendo a Viver) no papel da doce Betty é bastante convincente, principalmente na cena em que faz seu primeiro teste para protagonizar um filme. Por seu trabalho em Cidade dos Sonhos, Naomi foi escolhida como a Melhor Atriz do Ano pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema norte-americanos.

    Em seu universo surreal, Lynch também aproveitou para incluir elementos de outras produções suas, como o anão de Twin Peaks (aquele do Quem Matou Laura Palmer?), as cortinas vermelhas do misterioso salão do Club Silencio e a cantora exagerada em seus gestos dramáticos, além de um casal minúsculo saído da tal caixinha azul, a exemplo de Eraserhead.

    Não se pode falar muito sobre a história de Cidade dos Sonhos para não estragar a surpresa. O filme é um dos bons exemplos do estilo lynchiano: hipnótico, tentador e tenso. Certamente seus fãs não se decepcionarão, mas aqueles que não estão acostumados com a maneira estranha de Lynch fazer cinema poderão sair da sala de exibição completamente perturbados e cheios de perguntas.