cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    COLD MOUNTAIN

    Por Roberto Guerra
    22/05/2009

    Estréia nesta sexta-feira 13, em todo o País, uma produção que teria grandes chances de faturar o Oscar de Melhor Filme, isso, claro, se tivesse sido indicada à categoria. Trata-se de Cold Mountain, longa sobre a Guerra Civil norte-americana dirigido por Anthony Minghela (de O Talentoso Ripley e O Paciente Inglês). Indicado em seis categorias - Melhor Ator, Atriz Coadjuvante, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora e Canção -, causou surpresa em Hollywood a sua ausência entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Filme.

    A indignação dos que apostavam no filme, que num primeiro momento poderia soar como dor-de-cotovelo, tem razão de ser. Cold Mountain realmente merecia ser indicado. Mas por que o deixaram de fora da disputa? Seria somente mais uma inocente injustiça entre as muitas cometidas ao longo dos anos pela Academia? Injustiça, sem dúvidas. Inocente, nem tanto. Para se entender o porquê da não indicação do filme é preciso levar em conta o atual momento político norte-americano. O país, depois dos atentados de 11 de setembro e sob a batuta de George W. Bush, entrou de cabeça numa cruzada belicista. Os EUA de hoje têm de justificar sua política em prol da guerra, justificar os gastos, as mortes, a destruição. E o bom Cold Mountain é a antítese deste pensamento. O filme de Minghela contesta a guerra, joga por terra a dialética do fuzil na mão. Mais: um de seus protagonistas, o soldado Inman (Jude Law em ótima atuação), resolve desertar de seu exército ao constatar incongruência do embate.

    Naturalmente, a conservadora Academia não o consagraria neste momento. Ao contrário, os principais indicados embasam o pensamento belicista, como o maniqueísta O Retorno do Rei, que justifica os esforços de guerra se o objetivo for vencer o "mal". Temos também Mestre dos Mares, em que um capitão cruza os oceanos e vai até o outro lado do mundo atrás de seu inimigo. Em ambos, a guerra é mostrada como o único meio para se alcançar a paz. E os filmes que não levantam o assunto tampouco atentam contra o establishment, como Sobre Meninos e Lobos e Encontros e Desencontros, ou, então, passam mensagens pertinentes ao momento. É o caso de Seabiscuit - Alma de Herói, que trata daquele tema que os americanos adoram: superação dos obstáculos, o fraco levando a melhor em cima dos mais fortes apenas com determinação e força de vontade. Em suma, o velho calvinismo ainda entranhado na cultura norte-americana relembrando a todos os "perdedores" da sociedade que, se não alcançaram o sucesso, é por sua única culpa.

    Bem, mas vamos falar de Cold Mountain. O filme é baseado num romance de Charles Frazier e foi adaptado para as telas pelo próprio Minghela. Passa-se durante a Guerra Civil Americana, época em que o país estava dividido em dois: o sul de latifundiários e escravistas lutando contra o norte industrializado e abolicionista. A trama começa em meio ao campo de batalha, onde conhecemos o soldado Inman e descobrimos a paixão que deixou para trás ao partir para guerra: Ada Monroe (Nicole Kidman), filha do reverendo da cidade de Cold Montain, interpretado pelo sempre eficiente Donald Sutherland. Após uma seqüência de batalha de crueza e plasticidade impressionantes, a trama faz um flashback e mostra como o romance dos dois começou. Depois, acompanhamos a via-crúcis de Inman, que abandona o combate e parte em marcha para os braços da amada. No longo caminho de volta, enfrenta diversos reveses por conta das milícias encarregadas de caçar os desertores. Paralelamente, acompanhamos as dificuldades de Ada em sobreviver e cuidar da fazenda de seu pai, tarefa em que é ajudada pela rústica Rubby, vivida por Renée Zellweger em momento inspirado.

    Cold Mountain é um grande filme: bem filmado, tecnicamente irrepreensível, recheado de boas atuações e emocionante de se ver. Ao final de duas horas e meia de projeção (que passam desapercebidas), a sensação que fica é de satisfação. Confira e deleite-se.