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    COLEGAS

    Filme questiona diferenças impostas pela sociedade de forma lúdica e divertida <br />
    Por Cristina Tavelin
    28/02/2013

    Recheado de referências cinematográficas, Colegas traz uma abordagem envolvente para questionar as diferenças impostas pela sociedade. O fato de ter como protagonistas três portadores de Síndrome de Down, somado à maçante campanha Vem, Sean Penn, pode passar a impressão errônea de um longa politicamente correto envolto por puro marketing. Em relação à publicidade, talvez a premissa seja verdadeira. Mas em contrapartida à suposta benevolência, o filme do diretor Marcelo Galvão (Bellini e o Demônio) segue outro caminho.

    Stalone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pokk) e Márcio (Breno Viola) fogem do Instituto onde vivem inspirados por filmes da videoteca, especialmente Thelma & Louise. Para isso, roubam o carro de Arlindo, personagem de Lima Duarte, que narra a estória de forma afetada e infantil. O tom justifica-se apenas no final, mas destoa totalmente da proposta de uma obra sobre diferenças e não uma peça para promover a aceitação.

    O trio principal de atores dá vida aos personagens mesmo diante de suas limitações. Para se ter noção de quão complexa pode ser a escolha de elenco em casos semelhantes, Ben Lewin, diretor de As Sessões (filme sobre um escritor com paralisia muscular), enviou seu roteiro para diversas entidades de apoio a deficientes nos Estados Unidos. Após longa busca, não encontrou nenhum candidato com as características necessárias para o papel interpretado por John Hawks. No caso de Colegas, os protagonistas e vários coadjuvantes com Síndrome de Down deram conta do recado.

    Outro grande acerto do longa foi não se prender a uma linguagem polida. Quando os agentes Portuga e Souza passam a trabalhar no caso, após serem afastados de uma área muito mais violenta da polícia, o primeiro chama os jovens de “retardados” sem ser punido por isso. A linguagem tosca faz parte de seu papel. Ironicamente, resta-lhe apenas o dedo do meio em uma das mãos.

    Ao interrogar outros portadores de Down, os dois se deparam com caretas, ouvem suposições absurdas, delírios. A sequência provoca risos e desmistifica a ideia de que uma pessoa com deficiência esteja em um patamar intocável e seja uma heresia retratá-la com humor.

    O ídolo do trio em fuga é Raul Seixas; sendo assim, várias músicas da trilha sonora são do "maluco beleza". Essa admiração se encaixa muito bem à narrativa pelas ideias associadas ao roqueiro. A “loucura” está em todo lugar, como mostra Souza ao conversar com o espelho, incorporando um típico personagem de trama policial.

    As histórias de abandono de cada um dos protagonistas comovem e geram fantasias belas e coloridas. A cena em que Márcio pega um balão para encontrar os pais na lua é extremamente lúdica. E as sequências de assaltos e situações inusitadas na busca por desejos simples provocam diálogos engraçados. Felizmente, o filme trata a deficiência de forma leve, alternando drama a um humor autodepreciativo benéfico a qualquer ser humano.

    Apesar de muitas explicações e clichês, como a retrospectiva em preto e branco totalmente dispensável de um dos personagens, o desfecho aberto à imaginação reitera a ideia de uma trama calcada na fantasia. Tirando o foco de uma condição específica e elevando a perspectiva para um fator naturalmente humano – a diferença –, Colegas conseguiu desenvolver uma proposta criativa dentro do cinema nacional.