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    CORES

    Ousado e experimental, filme trata de uma geração desiludida no Brasil dos bons indicadores econômicos
    Por Roberto Guerra
    05/05/2013

    Em tempos de certo ufanismo reinante no Brasil da Copa e das Olimpíadas, onde discursos, invariavelmente, vem antecedidos do bordão “nunca antes na história desse país...”, Cores é mais que bem-vindo ao tratar da amargura de uma geração: a de homens e mulheres na casa dos trinta e poucos anos para quem o famigerado êxito econômico do Brasil não trouxe a oportunidade de um futuro melhor.

    Diurigido pelo brasileiro Francisco Garcia, o filme carrega ironia já em seu título. Apesar de se chamar Cores, é em preto e branco, metáfora da vida descolorida de seu trio de protagonistas. E segue na trilha do simbolismo e da antítese para mostrar que no país orgulhoso de seus bons indicadores econômicos muita gente ficou de fora da festa, especialmente trintões de classe média com formação profissional precária.

    Luca (Pedro di Pietro) é um deles. Tem um estúdio de tatuagens sem clientes e sobrevive do dinheiro da avó com quem mora. Compartilha suas angústia e desilusões com os amigos Luiz (Acauã Sol) e Luara (Simone Iliescu). Ela trabalha em uma loja de peixes ornamentais, namora Luiz e vive em num apartamento com vista para a pista do Aeroporto de Congonhas - o mais próximo que consegue chegar de seu sonho de viajar pelo mundo. Luiz vive numa pensão decadente no centro e desvia remédios tarja preta da famária onde trabalha. Sem aparentar grandes ambições ou crença em dias melhores, passam o tempo bebendo, fumando ou apenas não fazendo nada, comtemplando o vazio de sua próprias existências.

    O tempo para os três transcorre com a mesma fleuma dos passos do jabuti que anda pelo quintal da casa a avó de Luca. Velocidade destoante do dinamismo que o mundo moderno espera deles . Essa vivência melancólica e falta de perspectiva está arraigada nos personagens, mas também em cada detalhe do ambiente que os cerca graças ao elogiável trabalho de direção de arte. A trilha sonora marcante completa a composição perfazendo e individualizando suas personalidades.

    A amizade é outro tema de Cores. Entre Luca, Luiz e Luara existe uma fraternidade verdadeira, fruto da relação de descompasso que compartilham com o mundo à sua volta. É a essa relação de confiança mútua que se prendem para continuar seguindo adiante, mesmo sem saber para onde. A certa altura o filme se recente um pouco por não definir o rumo de sua trama, talvez propositalmente, numa analogia a seus próprios personagens. Há perda de ritmo, mas nada que prejudique muito o desenvolvimento dessa experiência cinematográfica ousada e pertinente em nossos dias.