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    CORPO PRESENTE

    Filme padece da falta de rumo de seus personagens
    Por Roberto Guerra
    06/10/2013

    "Não tenho medo de nada, só de ser enterrada viva". A afirmação de Cynthia (Simone Iliescu) encerra um anúncio de jornal em que se anuncia como garota de programa. A frase reflete o temor dela e também do agente funerário Alberto (Marat Descartes) e da operária Beatriz (Raissa Gregori). Não se trata do horror literal de descer à cova ainda respirando, mas o pânico de ser sepultado pela vida sufocante e sem perspectivas que levam na metrópole paulista.

    Estes três personagens centrais, cada um à sua maneira, lidam com o mal-estar urbano se alienando da realidade. Alberto atravessa os dias alucinado pelo efeito de drogas tarja preta. Cynthia se prostitui ocasionalmente, dança em uma boate e trabalha como manicure; anestesia-se da realidade sonhando em fazer parte de uma companhia de dança no Japão. Beatriz é mãe solteira, mora com a avó e seu trabalho na fábrica a mortifica; caminhar a esmo pela cidade é sua fuga inócua.

    Diferente da maioria dos filmes com tramas paralelas, em Corpo Presente as vivências desses personagens nunca se cruzam. Eles estão unidos apenas pela cidade, São Paulo, ela mesma uma personagem que os oprime. Não demoramos muito a notar um desequilíbrio evidente entre as tramas. Enquanto as histórias de Alberto e Cynthia são mais bem urdidas e abundantes em essência dramática, a da operária Beatriz parece inoportuna e sem revelo.

    O filme se propõe também a fazer uma homenagem ao cinema paulista da Boca do Lixo, marcado pelas produções baratas e de apelo sexual, que teve vez entre os anos 60 e 80. A reverência está nos enquadramentos, locações típicas e presença de nomes da época em papéis secundários. David Cardoso vive o vaidoso dono de um salão de beleza; Darlene Glória é uma cliente exigente e espalhafatosa; o cineasta Alfredo Sternheim interpreta um gângster.

    Para quem viveu ou conhece o movimento da Boca, tudo está claro - certos cinéfilos se dão por satisfeitos só em conseguir apreender referência em filme. O espectador não-iniciado, no entanto, vai ignorar os louvores e se ater à história central do longa, ou seja, ao que interessa de fato. E esta, na sua tentativa de explorar dramas existências urbanos, deixa muito a desejar.

    Corpo Presente padece do mesmo mal de seus personagens: alienação em relação ao entorno (no caso, o cinema que se faz hoje), falta de rumo e regularidade.