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    Meu Pai é imersão dolorosa em uma mente confusa pela idade

    Emocionante drama com Anthony Hopkins e Olivia Colman é um retrato fiel ao desgaste da velhice
    Por Thamires Viana
    23/03/2021 - Atualizado há 4 meses

    Alguns filmes chegam aos cinemas com intuito de apavorar o público propositalmente inserindo monstros, desastres, serial killers... Já outros conseguem assombrar retratando uma realidade dolorosa e bem mais palpável. Esse é o caso de Meu Pai, indicado ao Oscar de Melhor Filme neste ano que traz uma história cortante às telas. 

    Estrelado por Anthony Hopkins e Olivia Colman - ambos indicados ao prêmio em categorias de atuação - o drama ambientado em Londres acompanha Anthony, um idoso que passa a demonstrar os primeiros sinais de demência e recusa qualquer ajuda. Anne (Colman), sua filha, decide encontrar uma cuidadora para seu pai, já que ela pretende se mudar para Paris em breve.

    Logo nos primeiros minutos do longa temos a impressão de estarmos entrando um mundo no qual remédios e tratamentos sejam o foco principal da luta contra a doença. Isso, inclusive, já foi retratado em diversas outras produções cinematográficas. Porém, Meu Pai, adaptado da peça Le Père, do diretor do filme Florian Zeller, e roteirizada por ele em parceria com Christopher Hampton, vai além. 

    Não estranhe se você se sentir confuso durante todo o decorrer da trama, ou se por acaso não entender a passagem do tempo, quem são as pessoas ao redor, ou mesmo onde os personagens estão. O grande triunfo de Zeller é levar o espectador para dentro da mente confusa de Anthony e mostrar, literalmente, como a demência é dolorosa.

    A trama de Meu Pai mergulha não só no desespero do idoso em tentar explicar racionalmente o que ele sente ou vê, mas também na angústia de Anne e até mesmo na falta de paciência que, muitas vezes, ela não consegue esconder. É a maneira do longa em mostrar como os desgastes físicos e mentais da velhice podem afetar também aqueles que estão ao redor. 

    Esse retrato fiel do que é envelhecer assombra, principalmente, pela sensação de abandono que sentimos ao ver Anthony não reconhecer mais as situações e pessoas que lhe cercam. Enquanto ele tenta entender as versões de uma mesma história, é cortante observar a dor de alguém que luta incansavelmente contra suas próprias falhas mentais. 

    Aqui, Hopkins, um dos maiores nomes do cinema, traz ao personagem uma ambiguidade magnífica. Ele, que aos 83 anos está em plena forma e vitalidade, se deixa consumir pelo papel em momentos sensíveis e alegres como quando Anthony sapateia no centro da sala e afirma ter sido um famoso dançarino. Em outros o vemos demonstrar a fragilidade de um homem que não sabe mais quem é e implora, dolorosamente, por compreensão e amparo. O nome do personagem não é uma coincidência. Zeller afirmou em algumas entrevistas que sua adaptação foi escrita especialmente para o ator, já que ninguém mais poderia assumir esse personagem. Deu certo!

    Do outro lado, Colman traz para Anne a doçura de uma filha que ama e que precisa encontrar uma forma de cuidar de seu pai, mas que, assim como ele, também tenta encontrar alento para si mesma nessa situação. Sua coadjuvante cresce em tela e desperta os mais variados sentimentos no público. Você pode sentir raiva por ela em uma troca ou outra de cena, mas nunca deixará de sentir empatia em ver seu desespero em situações carregadas de realidade.

    Meu Pai não tem como foco retratar as doenças neurodegenerativas a partir de tratamentos médicos, mas sim ir mais a fundo e ampliar as discussões sobre o quanto o amparo e a compreensão aliados a eles são essenciais. É um filme forte e brutal que demora para ser digerido e que tende a deixar sua marca não só na temporada de premiações, mas também no coração dos espectadores.