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    DANÇANDO NO ESCURO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    O dinamarquês Lars Von Trier andava meio perdidão na sua carreira cinematográfica. Depois de dirigir o maravilhoso Ondas do Destino, ele parecia ter pirado: num curto espaço de tempo, Trier ajudou a criar o grande engodo do Dogma 95, dirigiu o péssimo Os Idiotas, e declarou à imprensa que iria se dedicar a fazer filmes pornográficos.

    Agora, ele se redime. Abandonando as normas que ele mesmo ajudou a criar no Manifesto Dogma, o cineasta realizou o belíssimo Dançando no Escuro, Palma de Ouro no Festival de Cannes 2000 e certamente um dos filmes mais importantes deste ano.

    Ambientado nos anos 60, num lugar qualquer no interior dos EUA (na verdade as filmagens foram feitas na Suécia), Dançando no Escuro mostra o drama de Selma, uma imigrante checa que mergulha fundo no trabalho para poder ganhar algum dinheiro extra e, assim, pagar uma operação para seu filho. Sua única válvula de escape são os filmes musicais que ela vê no cinema, acompanhada da grande amiga Kathy (Catherine Deneuve). Para Selma, os musicais são muito mais que um simples entretenimento. Inspirada por eles, ela cria o seu próprio mundo de sonhos, onde a simples batida cadenciada de uma prensa industrial pode se transformar na base de um hollywodiano número musical. Porém, o universo de Selma está prestes a desabar. Tanto o real quanto o imaginário.

    O tema é cruel. A direção é crua. A exemplo de seus trabalhos anteriores, Trier filma o tempo todo com a câmera na mão (ele próprio, inclusive, faz questão de operá-la). As cores são pálidas, talvez pelo fato do filme ser ampliado a partir da captação em vídeo digital, talvez para ressaltar a crueldade da história.

    Através de generosos closes, o diretor aproxima o público da ação e expõe sem retoques a dor da personagem principal, vivida pela cantora e compositora islandesa Björk Gudmundsdottir. Björk, aliás (que prefere assinar artisticamente apenas com seu primeiro nome), já declarou à imprensa que pretende continuar se dedicando apenas à sua carreira musical, mesmo tendo recebido o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. As canções do filme são compostas e interpretadas por ela.

    Dançando no Escuro é um filme que se assiste com um nó no peito. Abrindo mão de toda e qualquer armadilha cinematográfica (câmera lenta, trilha sonora lacrimejante ou coisas do gênero), Trier consegue deixar a platéia num crescente clima de emoção e suspense. Emocionalmente, é inevitável torcer por Selma, ao mesmo tempo em que - racionalmente - o espectador intui que o pior está para acontecer. E o resultado final é um grande filme.

    O elenco ainda traz o ótimo (e sempre sub-valorizado) David Morse, o amigo de Tom Hanks no filme À Espera de um Milagre.

    Uma dica final: propositalmente, o filme começa com longos minutos de total escuridão. O tema é a cegueira. Não faça papel de bobo vaiando o projecionista.


    22 de novembro de 2000
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br