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    DENTRO DA CASA

    Com roteiro inteligente, longa questiona limites entre ficção e realidade para um jovem e talentoso autor <br />
    Por Cristina Tavelin
    26/03/2013

    Poderia uma obra de ficção fazer alguém perder o senso da realidade? Até que ponto a arte destitui o artista de sua vida, apropriando-se dela? Dentro da Casa tenta responder essas questões por meio da história de um jovem com potencial para literatura, cuja vontade de escrever ultrapassa conceitos éticos e morais.

    No longa de François Ozon, Claude (Ernst Umhauer) precisa fazer uma redação por semana como exercício proposto por seu professor de literatura, Germain (Fabrice Luchini). O aluno começa a retratar a vida do colega de classe, Rapha, de maneira muito íntima, revelando pormenores de seu cotidiano com o pai (que também chama-se Rapha) e com a mãe Esther (Emmanuelle Seigner). Em termos literários, constrói uma obra. Em termos éticos, começa a destruir uma família.

    Esse é o grande dilema do filme e do professor Germain: o certo seria dar asas à imaginação de um adolescente com grande potencial, mesmo pressentindo consequências nefastas, ou restringir suas atitudes?

    Na medida em que aprende literatura, Claude começa a escrever sua “ficção” com primor e o longa ganha descrições poéticas sob seu ponto de vista. E com o estímulo de criar “personagens” mais convincentes, deixa todos em dúvida sobre a realidade das situações narradas. Apesar de não ser completamente original, o roteiro bem desenvolvido prende a atenção até o desenlace. O filme funciona bem com tomadas simples e diretas, prezando mais pelas palavras do que pela forma.

    O primeiro e dramático desfecho escrito para Rapha Jr. e a reação do professor mostram o nível de influência da ficção sob o leitor ou espectador em uma das melhores sequências do filme. Consequências reais começam a ficar em segundo plano em prol de uma boa história. Aqui surge outra questão, dessa vez sobre a arte: Ela deveria ter limites? Quem os define?

    Nessa trama, o jovem protagonista tem destaque absoluto. É bem provável que daqui a alguns anos muitos assistam Dentro da Casa para ver o início da carreira de Ernst Umhauer. Além disso, os personagens coadjuvantes são pertinentes e tem profundidade nas mãos de um ótimo elenco. As cenas da desanimada Esther em seu vazio de classe média e a interação com o amigo adolescente do filho criam grandes momentos da narrativa.

    O desfecho deixa a sensação de que Claude poderia muito bem ser uma metáfora, a idealização do futuro bem-sucedido na perspectiva de um professor frustrado. Vários filmes já usaram a metalinguagem para expressar o dilema entre real e ilusão na era da imagem, das verdades editadas. O Show de Truman e o recente Holy Motors são exemplos. Dentro da Casa entra discretamente para essa lista criando uma infinidade de perguntas do melhor tipo - aquelas que pairam no ar por tempos, até o próprio espectador encontrar (ou não) alguma resposta.