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    Depois a Louca Sou Eu

    Longa chega para nos lembrar que não estamos sozinhos e que de "louco" todo mundo tem um pouco!
    Por Thamires Viana
    24/02/2021 - Atualizado há cerca de 2 meses

    "Um breve manual da vida moderna". A frase estampada no pôster de Depois a Louca Sou Eu, filme estrelado por Débora Falabella baseado no livro homônimo de Tati Bernardi, é um resumo claro do que chega às telas. Tratando a ansiedade com um olhar mais leve, a produção dirigida por Júlia Rezende acompanha Dani, uma jovem que sofre com sérias crises de pânico desde à infância e que busca os mais variados tipos de tratamento para conseguir, enfim, relaxar.

    A abordagem desse mundo moderno é o grande foco de Depois a Louca Sou Eu pois essa modernidade junto ao avanço das redes sociais deixaram a população ainda mais acelerada, preocupada e, principalmente, ansiosa. Há alguns anos, falar de saúde mental era um tabu e o acesso às sessões de terapia era visto como um tratamento de grande extremo. A atual geração ganhou até o apelido de "geração rivotril", devido ao aumento do consumo de medicamentos para lidar com os transtornos psicológicos que afetam cerca de 700 milhões de pessoas ao redor do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). 

    No longa, a discussão do assunto é muito bem colocada através do roteiro de Gustavo Lipsztein e da direção de Júlia. A dupla criou uma adaptação muito direta e bem-humorada para a história de Tati, autora que colocou nas páginas do best-seller toda a sua vivência com a ansiedade. Sem quaisquer exageros ou banalização, o sofrimento da personagem, assim como suas grandes realizações, é trazido com um tom muito cuidadoso ao público. A produção assinada por Mariza Leão conta com sensibilidade e realismo capazes de criar identificação direta com quem se sente ou já sentiu ansioso. 

    Júlia traz para a direção seu olhar inconfundível que mescla o drama e comédia já presente em trabalhos anteriores - Ponte Aérea e Meu Passado Me Condena - e cria, visualmente, um universo ameno para um assunto espinhoso. Nas cenas que mostram Dani em meio às crises, é perceptível a identificação dos conflitos mentais da personagem através dos detalhes em vermelho que surgem no cenário. Ao mesmo tempo, o verde toma conta quando Dani se sente feliz ou relaxada. As cores vivas em tons de rosa, amarelo e azul também compõem essa leveza com a qual Depois a Louca Sou Eu apresenta sua narrativa.

    O realismo também é extremamente perceptível na impecável atuação de Débora. A atriz trouxe para Dani aspectos muito significativos para compor uma jovem que sonha em conquistar o mundo mas que se sente paralisada pelo grande medo de falhar. São dezenas de 'micro' cenas que mergulham na mente da personagem e que exemplificam exatamente o que é viver com ansiedade. Débora entregou muito de si para o papel e garante uma dualidade de sentimentos muito palpável durante o decorrer do filme. Arrisco ao dizer que Dani é uma das personagens mais reais que chegou ao cinema brasileiro nos últimos anos. 

    Esse mesmo sentimento é trazido para Gilberto, personagem de Gustavo Vaz, psicanalista que se torna o interesse amoroso de Dani. Assim como ela, o rapaz enfrenta suas próprias fraquezas e entra em conflito consigo mesmo em diversos momentos. Gustavo vive um personagem muito significativo que serve também para quebrar os estereótipos de que "homem não chora" ou que não se sente vulnerável. 

    Essa abordagem trazida para o relacionamento do casal também é uma forma de mostrar como as relações interpessoais têm se tornado cada vez mais delicadas e passageiras entre a nossa geração. Ambos os personagens tentam lidar com suas próprias incertezas ao mesmo tempo em que buscam uma forma de lidarem com as incertezas do outro. E, quase sempre, não conseguem facilmente.

    É aí também que entra a relação de Dani com sua mãe, Silvia, papel vivido por Yara de Novaes. O mais assertivo da narrativa é afastar as duas gerações para mostrar as diferenças com as quais ambas cuidam de suas próprias ansiedades. A atriz traz para Silvia uma mulher ansiosa e insegura que, mesmo sem perceber, abarrota a filha com seus próprios medos. Ela não cuida de si da mesma forma em que tenta amparar Dani e esse cuidado extremo mesclado à preocupação comum de uma mãe traçam um paralelo interessante sobre como, muitas vezes, essa relação pode ser sufocante. 

    Com atuações, roteiro e direção incríveis, Depois a Louca Sou Eu chega aos cinemas em um momento crucial em que o isolamento social aumentou ainda mais os índices de ansiedade entre a população. Porém, a adaptação dessa história criativa e até mesmo cômica chega para deixar nosso coração leve e, principalmente, para nos lembrar que não estamos sozinhos e que de "louco" todo mundo tem um pouco!