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    DESMUNDO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    É mais do que um filme. Desmundo é uma viagem no tempo. E para curti-la, recomenda-se esquecer do lado de fora do cinema toda a pressa, toda a correria e se deixar levar pelo ritmo onírico do século 16. Sem ansiedades.

    Tudo acontece nas primeiras décadas da colonização do Brasil, momento em que a Igreja solicita a Portugal que envie à sua colônia lotes de órfãs brancas dispostas se casar com os colonos. A intenção é aplacar os hormônios dos portugueses, impedindo assim que eles se miscigenem com as índias do lugar. É neste contexto que o roteiro, baseado no livro de Ana Miranda, centraliza sua força narrativa - e que força! - na personagem de Orisbela (Simone Spoladore), uma jovem órfã portuguesa que se rebela contra o casamento que lhe foi arranjado. Passado o primeiro momento de rebeldia - uma cusparada no rosto do pretendente - resta a Orisbela apenas duas tristes opções: morrer sozinha numa terra selvagem, ou casar-se com qualquer um. Ela opta pelo segundo caminho. E cabe a Francisco (Osmar Prado, ótimo), vivenciar este "qualquer um". De poucas palavras, poucos amigos e longe de qualquer tipo de refinamento, Francisco é quase um animal, mal conseguindo se relacionar com seus próprios iguais. Sua relação com Orisbela será de posse e a dela com ele será a eterna luta pela liberdade. Desse casal tão improvável nascerá um País mais improvável ainda. Um Brasil bruto, literalmente mal educado. Bastardo. E toda esta saga sobre o nascimento de uma nação ao sul do Equador é contada com maestria pelo diretor Alain Fresnot, que faz aqui um trabalho diametralmente oposto ao do seu filme anterior, a comédia Ed Mort.

    Desmundo é denso, maduro, envolvente, de interpretações marcantes e com uma produção de encher os olhos. Para recriar a atmosfera do Brasil Colônia, foi construída sob o comando do diretor de arte Adrian Cooper toda uma vila cenográfica com igreja, moradias e até escola jesuítica. Cerca de 150 índios legítimos da faixa litorânea, que vai de Bertioga (SP) a Parati (RJ), foram preparados especificamente para atuarem no filme. E o ponto que mais chama a atenção: o lingüista e professor Helder Ferreira comandou uma extensa pesquisa que procurou redescobrir como seria o português falado na época do descobrimento. Todos os diálogos foram vertidos para essa linguagem arcaica, e tudo foi legendado para o nosso idioma atual. O resultado é primoroso. Certamente Desmundo é um filme para um público pequeno, para uma diminuta parcela da população formada por cinéfilos a procura de experiências cinematográficas que vão além - muito além - de meros efeitos visuais. E que não vêem nada de errado num filme que não tem ritmo de videoclipe. Quem faz parte desta minoria não pode deixar de ver.

    Uma última curiosidade: a participação de Ana Paula Mateu, de 19 anos, a primeira portadora de Síndrome de Down a interpretar um personagem ficcional num filme brasileiro. Ela foi selecionada entre 60 alunos da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) para ser Vigilanda, irmã de Francisco.

    28 de maio de 2003
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. celsosabadin@cineclick.com.br