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    DEUS DA CARNIFICINA

    Novo longa de Polanski é feito de momentos de introspecção profunda e alguns outros descompromissados<br />
    Por Roberto Guerra
    06/06/2012

    O novo filme de Roman Polanski começa com o desentendimento de dois pré-adolescentes. Eles chegam às vias de fato e um deles leva a pior e tem dois dentes quebrados, fruto de uma paulada. O incidente leva os responsáveis pelos garotos se encontrarem na casa do agredido para tentar buscar alguma forma de reparação. Aos poucos, porém, as atenções se direcionam para a vida pessoal e profissional dos casais e a convencional polidez do início cede lugar a embates virulentos que por muito pouco não descambam para agressões físicas.

    O longa, baseado na peça teatral God of Carnage, de Yasmina Reza (que também assina o roteiro ao lado do diretor), tem 80 minutos de duração e, com exceção da breve cena da briga dos meninos, que se passa num parque, é todo ambientado dentro da sala de estar do casal formado por John C. Reilly (Precisamos Falar sobre Kevin) e Jodie Foster (Um Novo Despertar), pais da vítima. É neste ambiente, em meio a conversas sobre culturas, tipos de educação, remédios, hamster e indigestões estomacais, o destempero vai tomando conta do cenário.

    O advogado Alan, interpretado por Christoph Waltz (Água para Elefantes), passa a maior parte do tempo atendendo ligações de trabalho e parece pouco se importar com o que acontece à sua volta. Penélope, a personagem de Foster, tenta ser a mediadora do papo dos adultos. Michael Longstreet (Reilly) vai perdendo a compostura e mudando de personalidade ao longo das discussões. Nancy Cowan (Kate Winslet) parece a mais madura no início, mas mostra-se uma destemperada tempos depois.

    Fica claro pelo trailer quanto por todo o material de divulgação do filme que o encontro entre os dois casais civilizados vai se degenerar, partindo para a "carnificina" do título. Não existe suspense quanto a isso. Deus da Carnificina torna-se interessante, no entanto, pelo desenvolvimento paulatino desta situação de conflito. Polanski consegue extrair o máximo de seu elenco e aproveita cada segundo com uma direção muito segura. Trata-se de um trabalho harmônico, tanto na montagem quanto no roteiro, promovendo uma progressão certeira e inevitável rumo ao conflito.

    Mas Deus da Carnificina não proporciona apenas diversão ao espectador sentado na poltrona em posição cômoda diante da catástrofe alheia. Pode-se tirar algumas reflexões do filme, algumas óbvias, como as “máscaras” que caem diante de uma situação de conflito. Outras, no entanto, são mais sutis, como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também atesta que erudição e engajamento – no caso de Penelope – ou status social – caso de Alan – não significam, necessariamente, bons modos, generosidade e senso de coletividade.

    Trabalhando com riqueza de detalhes a personalidade de cada membro do quarteto, o bom roteiro não permite que nenhum deles torne-se desinteressante, mesmo que, por vezes, mostrem-se odiáveis ao exporem suas verdades. O argumento é, sem dúvida, atraente e os atores estão à altura dele. Polanski resolver facilmente a questão do espaço cênico da trama, conferindo à narrativa uma dinâmica capaz de captar a atenção do espectador por mais tempo.

    Ao mesmo tempo em que conserva a estrutura básica de uma peça teatral, o diretor faz o possível para controlar o ponto de vista do público, característica iminentemente cinematográfica. Os enquadramentos e o jogo com profundidades de campo diferentes denotam a mão do diretor de cinema a exercer seu controle artístico.

    Feito de momentos capazes de nos levar a introspecções profundas, mas capaz também de nos fazer rir de forma descompromissada, Deus da Carnificina prova que bons personagens e diálogos bem escritos ainda são a base de um produto cinematográfico. Polanski que o diga.