cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    DISTRITO 9

    O filme faz o quase impossível: tornar acreditável uma ficção científica
    Por Angélica Bito
    13/10/2009

    Quando o sul-africano Neill Blomkamp se desligou do projeto de dirigir a adaptação cinematográfica do videogame Halo - que ainda existe, previsto para 2012 -, o cineasta e produtor Peter Jackson [a mente por trás de O Senhor dos Anéis] ofereceu US$ 30 milhões para Blomkamp fazer o que quisesse. O que seria o sonho de qualquer cineasta início de carreira [este é o primeiro longa de Blomkamp] nada mais era do que sexto sentido cinematográfico do experiente Jackson. O resultado é Distrito 9, um dos mais novos fenômenos de bilheteria dos EUA, onde faturou US$ 114 milhões. Isso porque dificilmente um filme com indicação R [indicado para maiores de 17 anos] atinge um grande faturamento nos cinemas, como é o caso.

    Surpreendentemente parada sobre Johannesburgo – e não em Washington ou Nova York, como outras ficções científicas -, uma gigantesca nave espacial despeja milhares de seres extraterrestres na maior cidade da África do Sul e permanece vinte anos pairando sobre o Distrito 9, como ficou conhecida a área onde os aliens permanecem isolados, em meio a impossibilidade de voltar para casa. Os humanos passam duas décadas sem saber o que fazer com os novos habitantes da cidade que, com o tempo, constroem barracos – como as favelas que tão bem conhecemos – e partem para a marginalidade, roubando tênis e celulares dos humanos – verdadeiros trombadinhas num apartheid intergaláctico. Até que a Agência MultiNacional Unida, criada para “cuidar” desses alienígenas, tem a “brilhante” ideia de realocá-los, construindo tendas a mais de 100 quilômetros de Johannesburgo para isolar mais ainda os visitantes intergalácticos. A situação, que já se encontrava à beira do caos, torna-se incontrolável quando o improvável líder do processo de locomoção, o atrapalhado Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), sofre um acidente.

    A premissa de Distrito 9 é baseada no curta-metragem Alive in Joburg (2005), escrito e dirigido por Blomkamp. Foi nesse trabalho que o diretor trabalhou pela primeira vez com Copley, que nem tinha intenções de seguir como ator, mas agradou tanto como o protagonista desta ficção científica que ele será o capitão Murdock da adaptação cinematográfica de Esquadrão Classe A. E nenhum lugar melhor do que a cidade sul-africana – que, até 1994, separava e isolava os negros nos Soweto, bairro de periferia que abriga as favelas da cidade – para ambientar este longa, que ultrapassa as barreiras do gênero “filme de extraterrestres”.

    O começo de Distrito 9 é conduzido de maneira documental, com depoimentos e todos os elementos do gênero. O espectador demora a saber o que está acontecendo. E é assim, aos poucos, que Blomkamp conquista a atenção de seu público, criando um clima de tensão que chega a ser palpável. Os alienígenas, apelidados de “camarões”, têm uma aparência que lembra um inseto. Não à toa, em dado momento o filme dialoga com A Mosca, clássico do terror dirigido por David Cronenberg em 1986. São assustadores e completamente convincentes, especialmente pela forma documental como são mostrados. Distrito 9 é tão feliz ao misturar elementos reais aos ficcionais que a tensão é inevitável. As criaturas são convincentes pelo excelente trabalho em CGI do longa, não somente na criação visual dos extraterrestres, mas na forma como eles são inseridos na realidade de Johanesburgo, interagindo com seres humanos.

    O filme extrapola seu gênero por construir a tensão social espelhada no real clima de intolerância que tomou conta de Johannesburgo durante o apartheid. O clima, aliás, é provocado não somente pela segregação racial, mas principalmente pela desigualdade social. Mesmo sendo seres de outro planeta, os alienígenas acabam sendo corrompidos pela precária sobrevivência que conseguem levar no Distrito 9, não somente isolados, mas também reprimidos por uma violenta gangue de imigrantes nigerianos que dominam o local, não bastando o fato de estarem impossibilitados de voltar para casa. Assim, não é o fim do apartheid - ou a presença dele em dado momento histórico – que define o tipo de ambiente criado pela presença dos alienígenas na cidade. É, portanto, uma ficção com fortes raízes na realidade, o que o torna único em seu gênero.

    Combinando uma boa dose de ironia, drama, excelentes efeitos especiais e um protagonista forte, Distrito 9 faz o quase impossível: tornar acreditável uma ficção científica.