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    DO COMEÇO AO FIM

    Filme com personagens sem conflito é a pior faceta da pós-modernidade<br />
    Por Heitor Augusto
    13/11/2009

    Para começo de conversa, Aluizio Abranches merece elogios pela ousadia de conceber um argumento sobre o amor entre dois irmãos. O incesto, apesar de ter se desenvolvido relativamente tarde na linha evolutiva humana, é um dos pilares da sociedade contemporânea. Ponto para o diretor por ter ousado pensar em elaborar esse tema cinematograficamente.

    Agora, a partir do momento que ele escolhe tocar na ferida, é para ir fundo. Mas Abranches, em Do Começo ao Fim, vai do começo e não chega sequer no meio. Por diversas razões.

    A pior é a falta de conflito, principal culpada pela falta de verdade no filme. A começar pela família, formada pela mãe contestadora (Julia Lemmertz), o pai confuso (Fábio Assunção), a governanta (Louise Cardoso) e os inseparáveis meninos Francisco (Lucas Cotrim/João Gabriel) e Tomás (Gabriel Kaufman/Rafael Cardoso), meio-irmãos.

    No treino dos meninos, tudo corre bem. Não há cenas escuras. Não chove um dia sequer. Todos os cenários estão excessivamente iluminados. Os móveis brancos estão simetricamente organizados. Não há rostos com sombras. Não há espaço para o silêncio. É sempre muita luz (definição) em contraposição às sombras (dúvidas).

    Quem é que vive, independente das questões de sexualidade, num mundo em que tudo está perfeito e iluminado 24 horas por dia? Qual é o ser humano que não tem dúvidas e conflitos, ainda mais em se tratando de dois garotos irmãos, cujo amor é sexualizado?

    Personagens planos, sem desníveis em suas trajetórias. São idealizados. Não têm carne, nem osso, muito menos sangue. Personagem sem conflito, especialmente internos, não é personagem. É simulacro.

    Do Começo ao Fim não quer conflitos de qualquer espécie. Como disse o diretor na apresentação no CineSesc, é “pós-tudo”. Mas seu filme quis ser “pós” sem passar pelo “tudo”. Quis avançar sem passar pela dor. Pós-moderno na sua faceta mais vazia. Apolítico em um tema essencialmente político, um filme sem posição. E cinema, essencialmente, é posicionar-se sobre algo.

    Como espectadores, somos privados do momento de maior potencial do filme: o desenvolvimento da sexualidade dos garotos. Como eles descobriram o desejo, e mais, a atração mútua? O que acontece quando a ficha cai? Qual a resposta da escola à situação? Os pais? Os amigos? O treinador de natação? Nada, não há nada.

    A chance de Do Começo ao Fim tornar-se um drama é abortada. Abranches não mergulha e nos deixa sentados fora do mar, frustrados. Aí, pegando emprestado o termo do meu amigo João Nunes, do Correio Popular, “parece comercial de margarina”. Tudo é lindo, maravilhoso e, a propósito, eles são irmãos.

    Nesse contexto de abordagem retocada de um tema que, por si só, chama explosão, a beleza top model dos atores João Gabriel e Rafael Cardoso contribui negativamente para o filme. É mais um componente idealizado: em vez de serem reais, eles são intocáveis.

    Do Começo ao Fim idealiza não só a relação entre dois irmãos, mas toda e qualquer relação. É a ilusão de que a vida é sempre iluminada e cheia de certezas, basta apenas jogar nossos conflitos para debaixo do tapete.