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    DO LUTO À LUTA

    Por Celso Sabadin
    06/10/2006

    Muito se discute a respeito do papel do documentarista. Até que ponto o cineasta que se propõe a fazer um filme documental pode ou não pode interferir no objeto de seu documentário? Até que ponto ele deve ou não passar para frente de suas próprias câmeras? Quando Eduardo Coutinho registrou sua própria equipe pagando cachês aos entrevistados no filme Edifício Máster, o estranhamento foi grande. E rapidamente assimilado. Quando uma das personagens do documentário A Pessoa é Para o que Nasce se apaixona pelo diretor do filme, Roberto Berliner, e isso fica eternamente estampado na película, a gritaria foi maior. Teria sido um procedimento ético registrar a vulnerabilidade daquela personagem? A discussão não é nova e está muito longe de terminar.

    Um dos documentaristas mais atuantes do nosso momento, Evaldo Mocarzel, não fica à margem desta polêmica. Ele não hesitou em incluir cenas do parto do próprio filho em seu filme Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia, da mesma forma que sua filha foi o mote inspirador do documentário Do Luto à Luta, que finalmente chega aos cinemas, após uma longa e premiada peregrinação pelo circuito dos festivais.

    Do Luto à Luta se propõe a ser um registro alto-astral sobre pais de portadores de Síndrome de Down. Não é um documentário sobre a síndrome em si. Não é um "Discovery" da doença e quem sabe pouco sobre ela continuará sabendo pouco após ver o filme. O didatismo e o academicismo não fazem parte da proposta de Evaldo, que desejou exorcizar um pouco da própria vivência neste filme. Pai de uma garota portadora da Síndrome de Down, ele próprio admite ter trilhado a trajetória do luto até a luta, ou seja, migrou do choque e da tristeza inicial para uma profunda alegria enquanto aprendia a conviver com a filha. Ao ver que outros pais percorriam o mesmo caminho, resolveu fazer o documentário.

    A idéia é fazer com que as pessoas deixem de encarar o portador da síndrome como alguém incapaz; que seja, de uma vez por todas, erradicado o preconceito contra o termo "mongolóide", utilizado antigamente para identificar os portadores da deficiência; e, antes de mais nada, provar com imagens e depoimentos que o portador reúne possibilidades totais de ajuste à sociedade, podendo viver uma vida normal, sem entrar no mérito do tão discutido termo "normal". Já que, de perto, ninguém é.

    Do Luto à Luta evidencia que o portador da Síndrome de Down lê, escreve, trabalha, joga bola, raciocina, se diverte e se apaixona. Levanta o caso encantador de dois portadores da síndrome que se casam e deixa no ar uma aura de otimismo em relação a esta doença que sempre foi vista com tanto preconceito.

    Esteticamente, Do Luto à Luta opta pelo despojamento. Prefere enfatizar o conteúdo, enquanto se permite mostrar microfones e acertar enquadramentos durante os próprios depoimentos. Mercadologicamente, o filme está sendo lançado no momento correto, já que a novela da Rede Globo Páginas da Vida está abordando exatamente este tema em seu folhetim noturno. E mais: com a própria filha de Evaldo participando da trama. No caso, a vida imita a arte, que imita a vida, que imita a arte.