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    DOCE AMIANTO

    Filme tem proposta ousada, mas não é vanguarda gratuita
    Por Roberto Guerra
    26/11/2013

    Este longa da produtora cearense Alumbramento tem proposta ousada e trafega na contramão do cinema convencional. Espectadores pouco afeitos a experimentalismos devem evitá-lo. Ou não, afinal, sempre é interessante se propor a apreciar o diferente em se tratando de cultura. Pode-se embarcar ou não no atrevimento narrativo do filme, mas quando se quer fugir da mesmice correr riscos é inevitável.

    Amianto aqui não é o material venenoso usado na indústria. É a personagem central, jovem mulher aprendendo a amar. Ela é interpretada por um homem e num primeiro momento achamos que possa ser um travesti. O desenrolar da trama mostra o contrário, exibindo-a como uma mulher qualquer vivendo os reveses de paixões malsucedidas.

    Seus traços masculinos parecem servir para fundir num mesmo personagem os dois sexos, o que talvez explique o porquê de nos afeiçoarmos rápido à personagem. Ela é mulher, homem, um misto dos dois, pouco importa. Não demora muito e estamos compartilhando de seus sentimentos e torcendo por ela, mesmo diante de todos os excessos dramáticos do filme – Amianto se veste de forma espalhafatosa e fala declamando, assim como outros personagens.

    Logo nos primeiros minutos da produção a vemos tomando um pé na bunda. Ela vai visitar uma grande paixão e é duramente rejeitada. Depois de abraçar o namorado, este a joga no chão. No corte de cena, aparece se revolvendo na lama (real) no piso do apartamento. Não há dúvida quanto a seus sentimentos naquele momento. Quem dá uma força providencial para a amiga é Blanche, um fantasma efeminado e barbudo que levanta sua autoestima e dá conselhos sobre o amor.

    Num desses diálogos, resolve contar uma história à Amianto. Neste momento os diretores Guto Parente e Uirá dos Reis ousam mais uma vez ao abandonar a trama principal para contar uma história paralela que aparentemente nada tem a ver com o drama da protagonista.

    Não vou relevar detalhes dessa subtrama nem propor uma interpretação de sua possível ligação com o enredo principal. Limito-me a dizer, para instigar a curiosidade do espectador, que seu protagonista é um homem comum que acorda com o corpo verde e coberto de bolinhas vermelhas.

    Comprar a proposta de Doce Amianto não é fácil. É preciso se desfazer de conceitos como razão e lógica por um breve momento – de fato célere, o filme tem apenas 70 minutos de duração. Mas a vanguarda e audácia neste filme não são gratuitas, pretenciosas ou sem razão de ser. Vale o risco, mesmo que saia da sala de projeção desorientado com o que viu.

    O pior cinema ainda é aquele que não mexe com suas emoções, para o bem ou para o mal.