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    DOCE VINGANÇA

    Seco e violento, refilmagem trabalha na fronteira entre dor e êxtase e propõe jogo com espectador<br />
    Por Heitor Augusto
    10/03/2011

    Diz o limitado rótulo de gêneros cinematográficos que Doce Vingança é um filme de terror. Mentira. Estamos falando de uma produção a integrar a larga tradição do cinema sádico, um filme que trabalha de maneira precisa a exploração da excitação sexual pela fruição da dor.

    Ou seja, se o espectador castrar qualquer sinal do teor sádico que há em todos nós, vai sair correndo da sala de cinema. Claro, a castração é um meio digno que recorremos para não lidar com alguns instintos quando não estamos preparados.

    Steven R. Monroe propõe um jogo cênico que coloca o espectador como voyeur. Numa leitura ousada, na relação que estabelece na sala de cinema, Monroe e seu filme são masoquistas, enquanto o espectador é o sádico que tem os limites de êxtase desafiado. Só que Doce Vingança não é um filme sofisticado, que tem a tortura abordada sob um olhar de Buñuel ou de um livro irônico e provocador de Marquês de Sade. Trata-se de um filme mais direto, seco, que não trabalha com a noção mais elaborada da outra face do sadismo, o amor.

    Fincado no argumento da desforra, que já rendeu dezenas de filmes de exploitation, o longa-metragem apresenta vagarosamente a aspirante a escritora Jennifer Hills (Sarah Butler, fraca nas poucas nuances da personagem). Para terminar seu livro, Jennifer se refugia numa isolada cabana. O então predominante silêncio dá lugar a pequenas intervenções sonoras. Alguém a observa? Serão aqueles três rapazes que estavam no posto onde Jennifer reabasteceu o carro?

    Doce Vingança é uma refilmagem de I Spit on Your Grave, de 1978, lançado no Brasil como A Vingança de Jennifer. Não assisti ao original, mas me contaram que ele flerta com o trash e recorre a elipses nas cenas de maior violência.

    Claro, um exploitation da década de 70 tinha de responder à sua realidade. Hoje, o espectador se relaciona de outra maneira com a imagem, o que gera exageros na realização. Existe uma série de cineastas contemporâneos norte-americanos que, ao lidar com o terror ou a violência, entendem que muito nunca é demais e tudo precisa ser mostrado no limite (por exemplo, as tripas das vítimas em O Lobisomem).

    É por isso que faço questão de pontuar que Doce Vingança é um filme sádico, não de terror. A violência é um componente que realiza mais uma operação psicológica no espectador do que imagética no filme. É projeção, não afirmação. Um flerte entre a dor de um e o êxtase do outro.

    Como se trata de um filme de vingança como denuncia o título, Jennifer, a vítima, fará seus algozes pagarem na mesma moeda. Esperto, o roteiro de Stuart Morse cria uma narrativa circular, na qual os elementos cinematográficos que apareceram na primeira parte são retomados quando a garota persegue quem a coagiu.

    Pensei que este remake seria misógino, mas não: da mesma maneira que o diretor Monroe adota o ponto de vista dos homens na primeira parte, embarca na perspectiva da mulher na hora da vingança e atinge os algozes no ponto chave: o falo. A balança está equilibrada e a violência é explícita para ambos os lados.

    Não vemos em Doce Vingança um apuro como o de Buñuel a trabalhar com as projeções da culpa e da dor de sua heroína Séverine em A Bela da Tarde ou do possessivo e ciumento marido de O Alucinado. Mas o filme tem méritos ao trabalhar com a exploração da dor e colocar um jogo psicológico espectador/filme durante a sessão. Até aonde nós, que estamos assistindo ao filme, podemos ir?