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    DOIS DIAS, UMA NOITE

    Marion Cottilard em mais uma atuação impecável
    Por Gustavo Assumpção
    05/02/2015

    Os irmãos Dardenne estão no roll dos diretores mais respeitados pela crítica europeia na atualidade. Tamanho reconhecimento não é exagero, já que filmes como A Criança e O Garoto da Bicicleta mostram um olhar crítico e ao mesmo tempo sensível sobre a realidade do continente. 

    Dois Dias, Uma Noite é um novo passo nessa trajetória, um olhar sobre a apatia nas relações privadas. Ao voltar seus olhares para a crise econômica que a Europa vive nos últimos anos, a dupla belga criou um filme que sai de sua temática e atinge objetivos maiores, algo como uma reflexão simples, mas honesta da condição humana.

    O filme acompanha Sandra (Marion Cotillard, indicada ao Oscar de melhor atriz), uma mulher que perde o trabalho após uma disputa difícil: seus companheiros precisaram decidir entre aceitar o bônus anual ou mantê-la em seu posto de trabalho.

    Mas o chefe de Sandra está disposto a repetir a votação. Isso dá à protagonista um fim de semana - dois dias e uma noite - para convencer a maioria de seus 16 colegas a votarem pela sua permanência.

    Não é uma decisão fácil e o roteiro de Jean-Pierre e Luc dá conta de transitar sobre todas as possibilidades éticas que envolvem a decisão, que é sim pessoal, mas reverbera em questões morais. O filme é composto em grande parte desses encontros, da protagonista destituída de toda e qualquer vaidade tentando convencê-los de que devem tomar uma decisão altruísta.

    Esse despreendimento é refletido na própria Sandra, sempre vestida casualmente, os cabelos bagunçados, a expressão desesperançosa. Marion Cotillard mostra, assim como em Era Uma Vez Em Nova York, que tem a sensibilidade de tomar para si cada sequência, retratando uma certa melancolia e criando uma personagem crível, complexa e de fácil identificação. 

    Embora a estrutura do roteiro seja simples e despretensiosa, há espaço para revelações sobre a vida desses personages. A relação de Sandra com o marido (o também ótimo Fabrizio Rongione), seus dramas pessoais que tanto dizem sobre suas atitudes. A crítica ao capitalismo predatório e à desumanização do mundo do trabalho está em seu texto, mas nunca exageradamente explícita ou panfletária.

    Ao final desse calvário, a grande questão: destituídos de nossas individualidades, há caminho para vivermos em comunidade? Se no nosso mundo as relações econômicas assumiram o protagonismo, a busca pela humanização de nossas relações cotidianas é o que ainda nos resta. Pelo menos é nisso que os Dardenne acreditam.