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    DOIS IRMÃOS

    Sempre criativo, argentino Daniel Burman prova que simplicidade gera um filme complexo<br />
    Por Celso Sabadin
    05/10/2010

    Um dos mais festejados cineastas argentinos da nova safra, Daniel Burman (o mesmo de O Abraço Partido, As Leis de Família e Ninho Vazio) novamente volta as suas lentes para o tema que domina com maestria: as relações humanas. Se em seus primeiros trabalhos é marcante sua preocupação em radiografar as relações entre pais e filhos, em Dois Irmãos ele prefere dissecar uma conturbada relação entre irmãos. Ainda que tudo seja desencadeado pela morte da mãe deles.

    Marcos (Antonio Gassala) é um delicado e sensível sessentão que passou toda a vida cuidando ou sendo cuidado pela mãe. Seu contraponto é a irmã, Susana (Graciela Borges), mulher despachada e desbocada que passa por cima de tudo e de todos (principalmente do próprio irmão) visando apenas seus próprios interesses. Após a morte da mãe, o desequilíbrio emocional entre o casal de irmãos de instala de forma mais visível e agressivo, a ponto de Susana forçar Marcos a trocar a Argentina pelo Uruguai onde ele – segundo ela – viveria melhor.

    Novamente o cinema argentino faz mais com menos. A partir do livro Villa Laura, do também argentino Diego Dubcovsky, Burman constroi um belo e dolorido painel sobre as relações de poder, dominação e triste interdependência que nascem e crescem dentro dos ambientes familiares. Se numa primeira leitura a personagem de Susana se apresenta como forte e resolvida, logo a máscara cai por terra, revelando uma pessoa cuja maldição parece ser a da necessidade de ter alguém do lado para poder humilhar. O vírus que não vive sem hospedeiro. Afinal, o que se passa com alguém que tem como hobby comprar apartamentos que sabe que jamais conseguirá pagar? É ela a responsável pelos ótimos momentos de humor ferino do filme.
    Por outro lado, se Marcos, num primeiro momento, se apresenta como um personagem revestido de total fragilidade, mais tarde se notará que, apesar de tudo, ele sim consegue desenvolver, por si próprio, mecanismos de busca pela satisfação e realização. No caso, o teatro.

    É o cinema argentino visitando outra vez os temas da solidão, da melancolia e da incomunicabilidade, tão queridos à cultura daquele país. E, para isso, não precisa mais do que um roteiro sólido, uma direção segura e – como sempre – belíssimos atores. Pode parecer pouco, mas não é. Afinal, mais do que qualquer efeito especial, são o roteiro a direção e as atuações o verdadeiro tripé que constroi o bom cinema, e já faz um bom tempo que nuestros hermanos (re)descobriram isso.