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    DOLITTLE

    Por Alexandre Dias
    19/02/2020

    É curioso como as adaptações do Doutor Dolittle, o médico que fala com os animais da literatura, refletem as suas determinadas épocas. O longa de 1967, por exemplo, tem mais de 2h30, algo impensável para um filme como esse nos dias atuais, mas um pouco mais frequente em projetos cinematográficos desse período. Ou observemos as duas produções estreladas por Eddie Murphy, que transportam o médico para os Estados Unidos no clima das comédias dos anos 1990. 

    O novo Dolittle não é diferente. A maior fidelidade à narrativa e ao contexto que o escritor Hugh Lofting criou foi direto ao encontro de duas questões contemporâneas: as aventuras cômicas/dramáticas com criaturas digitais para toda a família e Robert Downey Jr.; a ideia desse projeto é completamente compatível com o estilo do ator, que é justamente ser uma das estrelas da linha de frente de Hollywood com o seu carisma caricato. No entanto, o potencial - talvez imprevisto - dessa versão em ser algo a mais do que um entretenimento divertido deixa o resultado final menos empolgante. 

    Não se engane, as promessas do trailer e da proposta em si são cumpridas: as interações dos personagens humanos com os animais são engraçadas e cativam. O elenco de peso de dubladores, composto por nomes como Tom Holland, Rami Malek e Selena Gomez, faz diferença e a computação gráfica dos bichos aposta no trivial. Portanto, os efeitos visuais não enchem os olhos como em Planeta Dos Macacos: A Guerra, porém condizem com o tom do longa, o que não gera incômodo em nenhum momento. 

    O elenco de homens, mulheres e crianças reais é igualmente qualificado e Downey continua a reciclar os trejeitos de Tony Stark e Sherlock Holmes com segurança. Todas essas são expectativas atendidas. O mérito que veio sem ser previsto foi a maturidade do roteiro em determinados pontos. O texto chegou a passar pelas mãos de várias pessoas, inclusive do diretor Stephen Gaghan, mas nos dois primeiros atos é extremamente coerente. As piadas sabem colocar uma ironia que agrada tanto adultos quanto crianças, como ocorre, por exemplo, quando o personagem de Michael Sheen afirma ter feito uma pergunta retórica. 

    Essa característica misturada ao potencial dramático da história foi o fator diferencial, tanto para o bem como para o mal. O pano de fundo de John Dolittle nos moldes de Logan, como uma pessoa desiludida que vê luz novamente nos seus ideais, é muito subaproveitada. Logo, a consequência é uma trama que aposta em clichês recorrentes. A prova máxima disso é um dos desafios finais apresentados para os personagens, em que também há um elemento estranho até para aquele mundo fantástico. 

    A própria ideia da "magia realista" desse universo acaba por ser ignorada, principalmente levando em conta o conceito eficaz do início de como a comunicação dos animais e humanos acontece. Esses quesitos trouxeram uma certa apatia a Dolittle, retirando uma carga de emoções que poderia ter elevado o filme a um nível de uma das grandes estreias do ano. O público ainda consegue sentir um gostinho do que essa experiência seria se trabalhada de outro jeito, o que no mínimo garante uma diversão sem compromisso.