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    COMO NÃO PERDER ESSA MULHER?

    Comédia critica objetificação do ser humano
    Por Daniel Reininger
    04/12/2013

    Apenas um ator carismático como Joseph Gordon-levitt poderia encarar o papel de um viciado em pornografia de forma tão agradável. Ele é o diretor e protagonista de Como não Perder essa Mulher, que até pode ter nome de comédia romântica, mas é uma crítica à cultura de objetificação do ser humano e uma brincadeira com a forma como isso dificulta a intimidade entre duas pessoas.

    Jon Martello (Levitt) é um homem de simples prazeres: malhação, família, igreja, amigos e pornografia. No entanto, ele dá atenção especial ao último item. Mesmo após sexo real, algo comum em sua vida - afinal não é a toa que o chamam de Don Jon -, ele não resiste a um clipe erótico. Sua mente está sempre à deriva em situações improváveis e, como ele mesmo diz, prefere pornôs à coisa real.

    Gordon-Levitt, em sua estreia na direção, usa a luta de Jon contra o vício para explorar a sexualidade e relacionamentos. Na trama, tudo começa com a procura de uma garota na balada. Ela precisa ter beleza nota 10, uma raridade que vale qualquer esforço. Eis que entra em cena Barbara, versão em carne e osso das maiores fantasias masculinas, algo como a versão live-action de Jessica Rabbit, e uma das melhores atuações de Scarlett Johansson no cinema.

    É óbvio que Jon se interessa e vai longe para conseguir sair com ela. Ele só não esperava ser sugado para um relacionamento no qual é obrigado a cumprir todos os desejos da moça, sem espaço para esboçar reação. A questão é que Barbara insiste em algo mais tradicional, arrasta Jon ao cinema para assistir filmes melosos – com ótima participação de Channing Tatum e Anne Hathaway - e insiste em conhecer seus pais. O resultado é o anulamento quase total da personalidade do rapaz, que apenas não abre mão de seus amados vídeos.

    A partir daí, a trama funciona como as comédias românticas mais convencionais, apesar da crítica continuar presente. O foco muda um pouco e a narrativa passa a mostrar o outro lado da moeda: expectativas românticas socialmente aceitáveis e completamente irreais. Para reforçar as mensagens, aparece Esther (Julianne Moore), mulher mais velha com visão madura e realista do mundo, que começa a abrir os olhos do protagonista.

    Diferente de Shame, que usa abordagem artística e dramática para tratar do mesmo assunto, Don Jon (nome original e mais adequado) é caricato e usa linguagem particular das comédias românticas. O mais surpreendente é a decisão de Gordon–Levitt de inserir cenas de filmes pornôs em cortes rápidos e certeiros, que causam choque e funcionam perfeitamente em conjunto com a narrativa.

    Por sinal, o ator mostra potencial para dirigir e consegue boas cenas com fotografia inspirada e montagem ágil, que cumprem um propósito. Entretanto, como roteirista ele é indulgente, pois explica demais alguns conceitos, além de criar situações interessantes que acabam deixadas de lado. É o caso de Tony Danza no papel de um patriarca italiano autoritário. O relacionamento de pai e filho é explosivo e engraçado, mas poderia ter sido mais bem explorado.

    Como não Perder essa Mulher não é para todos os públicos, embora seja muito mais fácil de digerir do que produções com viés artístico. Sua visão transgressora do mundo arranca risadas e ainda apresenta lições importantes sobre relacionamentos, mesmo que, por vezes, faça isso de maneira quase didática. Erro perdoável para um filme de estreia, ainda mais um tão divertido.