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    E A VIDA CONTINUA... (2012)

    Filme é panfleto espírita e só isso. Como cinema, aberto ao público em geral, é uma lástima<br />
    Por Roberto Guerra
    12/09/2012

    No cinema, mensagem e técnica não podem andar em dissonância. Pouco importa o que queira dizer, quão edificante seja sua mensagem, se houver um desprezo pelo método, tudo estará sepultado, sem direito a vida pós-morte.

    É o que ocorre com o filme E a Vida Continua..., longa de estreia do ator e roteirista Paulo Figueiredo, que, a despeito do recado altruísta, galvanizado pela doutrina espírita, não passa de uma produção amadora que chega a soar como sacrilégio diante da proficiência técnica que o cinema nacional alcançou nos últimos anos.

    O cinema brasileiro não merece condescendência nem protecionismo. E isso é uma forma de enaltecer e valorizar, por mais contraditório que pareça, o que se produz por aqui. Sendo assim, não há como classificar E a Vida Continua... a não ser como um filme ruim, desde já na lista dos piores do ano.

    A produção não sofre com alguns problemas técnicos. É um filme permeado de ponta a ponta com um diletantismo nada prazeroso ou romântico. O roteiro, adaptação do livro homônimo escrito por Chico Xavier, é de uma primariedade digna dos piores folhetins. E por falar em folhetins, lembra os mexicanos por ser todo dublado. Atores dublarem suas próprias falas é até comum quando se quer resolver algum problema pontual de captação sonora. Fazer um filme com todos os diálogos dublados é anacrônico e inexplicável hoje em dia.

    Para piorar, a mixagem sonora é péssima. Nas externas, o trabalho é mal feito e faz conversas, que deveriam contar com ruídos ambientes, parecerem gravadas em local fechado. E a credibilidade se esvai também junto com os diálogos pouco naturais. Existe um constante didatismo professoral e proselitista na fala dos personagens, marca-registrada de filmes religiosos no país. Não há contentamento em apenas se fazer um filme sobre o tema, é preciso tentar catequizar o público.

    As gafes técnicas não ficam por aí. A fotografia é escolar, com mudanças de intensidade de iluminação em troca de planos de mesma cena. O posicionamento de câmera e enquadramentos são típicos de quem nunca filmou nada mais complexo que os aniversários dos familiares, com direito a problemas de angulação básicos entre planos. E a montagem, com seus excessos de fades longos (sem nenhum propósito narrativo ou estético) mergulham o filme num abismo que uma trilha sonora irritante, e mal acondicionada ao enredo, ajudam a cavar.

    E a Vida Continua... é um filme de planos fechados, de close-ups, muitos close-ups. Tudo se alterna de um plano fechado no rosto de alguém para o de outro alguém. Isso para contar, e mal, a história de Evelina (Amanda Costa), jovem prestes a passar por uma complexa cirurgia. Ela cruza o caminho de Ernesto (Luiz Baccelli), que se encontra na mesma situação. Logo se estabelece uma proximidade entre os dois dada à coincidência, que Ernesto não enxerga assim. A amizade é interrompida pela internação de ambos, mas retomada quando se encontram após a morte. Lá, distantes da vida terrena, descobrem que têm mais em comum do que imaginavam. E segue-se, então, uma série de "surpresas", num arremedo do que seriam as viradas de roteiro.

    A produção é um panfleto espírita e só isso. Como obra de cinema, aberto ao público em geral, está em dessintonia com padrões mínimos de qualidade. Diferente de muitos longas nacionais de baixo orçamento, que conseguem disfarçar com habilidade e inteligência a falta de recursos, em E a Vida Continua... as limitações se escancaram na tela. Um filme mal realizado sob todos os aspectos e para o qual não há sobrevida.