cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    E AGORA, AONDE VAMOS?

    Diretora libanesa Nadine Labaki usa de humor e lirismo ao tratar de conflitos religiosos no Oriente Médio
    Por Roberto Guerra
    12/11/2012

    Falar de dramas humanos e conflitos religiosos no Oriente Médio não significa necessariamente fazer um filme denso, pesado. Quem dá provas disso é a atriz e diretora Nadine Labaki (de Caramelo), que transforma seu E Agora, Aonde Vamos? numa produção animada e divertida sem deixar de colocar em evidência as cicatrizes deixadas por anos de embates sangrentos motivados por discordâncias de credo.

    A opção de Nadine foi arriscada, mas bem-sucedida. Ela soube ser sutil ao introduzir humor e ironia em meio ao pano de fundo de tensão no qual se desenrola a história. A jocosidade com a qual pontua a trama não ameaça nem ameniza a realidade dos fatos. Ao contrário, permite ao espectador ocidental uma visão menos estereotipada desses povos, humanizando-os em seu cotidiano.

    O filme trata da convivência complexa entre cristãos e mulçumanos numa diminuta aldeia perdida nas montanhas. Embora possa se supor que o país onde se desenrola o filme seja o Líbano, em nenhum momento a pátria da cineasta é identificada. Outra decisão acertada de Nadine, que quis mostrar em seu filme a insanidade de conflitos entre irmãos, vizinhos, passível de ocorrer em qualquer guerra civil ao redor do mundo.

    É interessante notar como a diretora analisa a incongruência dos conflitos religiosos escancarando o ridículo de suas motivações. A ameaça à paz da aldeia vem de fora, na forma de um aparelho de TV que traz notícias capazes de, num átimo, servir de centelha para que vizinhos peguem em armas e aumentem a população do cemitério do lugar, que rivaliza com a de vivos. Por outro lado, a incoerência também reside na cabeça das pessoas, latente, pronta a emergir por causa de futilidades, como cabras desavisadas que invadem uma mesquita. Nestes momentos a ignorância ameaça corroer a racionalidade desses homens e são as mulheres da aldeia que usam de meios insólitos (e aqui residem os momentos divertidos do filme) para não verem seus filhos e maridos mortos por algo que acreditam não valer a pena.

    Nadine foi hábil em construir esse equilíbrio entre bom humor e drama, mas não mostrou tanta competência ao conduzir seus muitos personagens. Nota-se no quarto final do filme que a diretora, que também interpreta uma das personagens principais, perde a mão e não consegue manter a coesão. Isso fica ainda mais claro com a chegada de um grupo de strippers ao vilarejo, o que dá margem a algumas situações divertidas, mas onde se identifica também um subaproveitamento de situação e personagens.

    Nada capaz de tirar o encanto de E Agora, Aonde Vamos?, que também faz uso de números musicais cantados pelos personagens para dar um tom de lirismo à trama naturalista. Neste ponto o filme lembra muito as produções indianas, que não prescindem de um número musical. E no filme da cineasta libanesa esses momentos são muito bem inseridos na trama assim como o humor.