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    Estranho Passageiro: Sputnik segue a tradição de Alien: o 8º Passageiro

    Filme traz aliens e crise institucional em terror angustiante
    Por Maria José Barros
    18/02/2021 - Atualizado há 3 meses

    Ser comparado à Alien, o 8º passageiro (1979), de Ridley Scott, não é algo que facilite a vida de um filme. Esse híbrido de ficção científica e terror foi visionário ao trazer um drama com contornos trágicos sobre uma tripulação espacial assolada por um monstro quase invencível. Contribuiu para o subgênero body horror de maneira sublime ao colocar a matéria humana como hospedeiro de um alienígena. Sutil e sorrateiramente, esse “passageiro” levava os demais ao derradeiro declínio. Há em Estranho passageiro – Sputnik (2020), pouquíssimos elementos do filme de Scott. Mas o principal – que chamou a atenção do público à ponto do filme russo ter sido lançado nos cinema brasileiros – foi justamente o seu elemento body horror, que eleva o debate sobre identidade, além de avançar para uma discussão ética que tem como pano de fundo uma descrença bem contemporânea nas instituições.  

    Em 1983, em uma União Soviética cansada da Guerra Fria e já beirando a ruína, um estranho acidente ocorre no pouso do Orbit-4. O cosmonauta Konstantin sobrevive, mas não consegue se lembrar do que aconteceu com seu companheiro de tripulação. Isolado em uma base militar distante dos olhares de Moscou, o coronel Semiradov chama a médica Tatyana, conhecida por métodos ousados de tratamento, para acompanhar o herói nacional que está sob sua supervisão. Mas ao chegar na base, Tatyana é surpreendida de forma impactante: Konstantin trouxe consigo do espaço uma criatura que o utiliza como casulo e sai todas as noites de seu corpo (mais especificamente seu estômago) para se alimentar. Como um não vive mais sem o outro, e temendo uma simbiose completa, a médica deve descobrir como separá-los para fins de pesquisa sem prejudicar a vida de Konstantin.  

    Dirigido pelo estreante em longas Egor Abramenko e com um orçamento inferior a 3 milhões de dólares, o filme estreou no Tribeca Film Festival em 2020, mas acabou sendo empurrado para VOD na Rússia no mesmo ano por conta da pandemia. Isso não chegou a ser um problema, já que a obra virou um hit indie.  

    A abordagem atmosférica e sufocante pela qual Abramenko optou pode ser o motivo que fez com que o filme chamasse tanta atenção. A relação entre o cosmonauta e seu “hóspede” acaba assumindo o centro da narrativa, que tem em Tatyana nosso referencial na trama exposta em camadas. O conflito da personagem é, antes de tudo, ético, algo que cria um contraste bem determinante com a estrutura burocrática e ideológica do Estado Soviético, altamente centralizado e militarizado, representado pela figura de Semiradov. Ao mesmo tempo em que engana Moscou para manter Konstantin vivo, não se sabe o que o personagem realmente pretende com o alienígena. Já o cientista Rigel, um dos chefes da missão, não abdica de métodos escusos para um objetivo maior que, dadas as circunstâncias, pode ser uma arma biológica que acabasse de uma vez por todas com a Guerra Fria. O roteiro, assinado por Oleg Malovichko e Andrei Zolotarev, é por vezes moroso em sua tarefa de entregar a história, mas esse tempo depositado é compensado com uma trama que surpreende em seus pequenos movimentos.  

    Diferentemente do intimismo de Alien, o 8º passageiro, há um clima de paranoia institucional. A matéria individual está sobrecarregada pela estrutura, fato que o diretor consegue impor com competência na trama através do hibridismo de Konstantin, de sua confusão categórica, de sua impossibilidade subjetiva viver a limiaridade. Essa fusão entre hóspede e hospedeiro, em um primeiro momento, serve também como elemento horrífico ao constatar a crise de identidade contemporânea. Ao levar a história para o início dos anos 1980, Abramenko acaba tornando essa confusão mais concreta e perceptível e a narrativa evolui para um momento em que uma possível simbiose já não é mais o foco central.  

    A cinematografia de Maxim Zhukov não chega a surpreender. Há uma série de lugares comuns nos enquadramentos e a escolha por cenários fechados e sufocantes deixa o clima soturno. Mas as deficiências do filme são contornadas por uma mise en scène lustrosa, que ousa dar alguns passos adiante em uma temática já tão bem explorada – vide a franquia de Alien. Abramenko estreia em um patamar reflexivo, consciente da tradição e peso do seu subgênero (body horror) e fazendo jus a toda uma nova safra de filmes de terror que querem sempre algo mais do que causar sustos vazios.