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    EU, MAMÃE E OS MENINOS

    Comédia francesa surpreende, apesar de clichês
    Por Cristina Tavelin
    07/05/2014

    A comédia Eu, Mamãe E Os Meninos chega ao Brasil com dois problemas: a indicação de gênero e o título. Não se trata exatamente de um filme engraçado, principalmente para os padrões brasileiros e, no original, chama-se algo como "Meninos e Guillaume, Está na Mesa". A tradução não seria a melhor para ganhar o público, mas se aproxima mais do ponto em questão nessa história autobiográfica surpreendente.

    Concebido, dirigido e protagonizado pelo comediante francês Guillaume Gallienne, tem início num palco de teatro, onde a ideia ganhou espaço pela primeira vez numa peça de sucesso na França. Aliás, a produção para os cinemas também foi bem por lá, faturando cinco prêmios César. 

    O ator começa a narrar a própria vida e, daí em diante, essa voz no palco será intercalada com as cenas da trama (uma boa escolha). Gallienne interpreta a si mesmo em diversas fases e também à sua matriarca, que o vê como uma figura delicada e feminina e lhe causa grande admiração.

    O longa parece engrenar numa abordagem comum sobre homossexualidade, mas acaba seguindo um caminho mais complexo, entrando no campo de gênero, identidade e julgamento. Há uma grande virada na trama, justamente o ponto que eleva Eu, Mamãe e Os Meninos de um filme que poderia passar batido para um filme que deve ser visto.

    Até esse grande momento, não passa de uma produção mediana. Algumas piadas funcionam e outras são desnecessárias, como as das cenas da masturbação no colégio interno e a passagem da colonterapia feita por uma alemã bem caricata.

    Aliás, o longa se apoia nesses clichês ao compor vários personagens, reforçando estereótipos de franceses e ingleses também. Mas, ao contrário da maioria das comédias, não faz isso de forma agressiva. Os momentos na Inglaterra são memoráveis.

    Em cenas mais dramáticas, artifícios como chuva intensa causam uma certa vergonha alheia por não chegarem ao nível da sátira ou algo do tipo. Há uma confusão entre comédia e drama. Mesmo assim, quando o personagem reflete sobre sua persona em relação aos outros, o longa consegue emocionar.

    Nesses momentos mais reflexivos, vale destacar o bonito olhar de Gallienne em relação às mulheres, à forma como cada uma respira e o inspira a admirar o feminino. Por outro lado, seu aparente desconforto com o lado masculino se mostra tão interessante quanto sua delicadeza, fazendo pensar sobre o estereótipo frágil imposto aos homens franceses mundo afora.

    Nesse sentido, o filme se ambienta em locais propícios para o conflito de imagem e força: no colégio interno, no exército, no spa, onde o personagem sempre se vê levado a questionar a própria identidade e tentar reafirmá-la.

    Apesar de ser longo um pouco além da conta, Eu, Mamãe e Os Meninos surpreende. Mais do que uma visão bem humorada sobre a homossexualidade, trata de julgamentos equivocados e a necessidade de compaixão para lidar com eles às vezes.