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    EXPRESSO DO AMANHÃ

    Sci-fi é arrepiante, divertido e cativante até o fim
    Por Daniel Reininger
    06/08/2015

    O drama pós-apocalíptico do sul-coreano Joon-Ho Bong (O Hospedeiro), O Expresso Do Amanhã, é brutal e reflexivo ao mesmo tempo. Com uma ambientação bastante criativa para o gênero pós-apocalíptico, mostra uma locomotiva que circunda o planeta congelado e é a última esperança de sobrevivência.

    Só que, como sempre, a humanidade não sabe compartilhar as coisas, então o trem é dividido por classes. Enquanto 1% vive no luxo dos vagões dianteiros, 99% da população apodrece no último vagão, mas um líder, interpretado por Chris Evans  (Capitão América), pode mudar as coisas.

    O filme tem um feeling de jogo de videogame, mas não no mau sentido. Conforme o protagonista evolui de vagão em vagão, o ambiente muda, as batalhas e desafios se alteram e ele precisa se adaptar enquanto descobre um mundo novo, que nunca poderia imaginar existir naquele trem, aparentemente, desolado. Essas reviravoltas e novidades transformam o filme em uma viagem muito interessante, apesar de se passar apenas em um trem, e transforma esse criativo sci-fi em uma obra-prima de ação. Arrepiante, divertido e cativante até o fim.

    Na trama, Curtis (Evans) não nasceu a bordo do Expresso do Amanhã e lembra do mundo antes do trem e do congelamento. Por isso, ele planeja a anos com Gilliam (John Hurt) tirar seus companheiros da miséria onde moram. As chances eram pequenas até então, afinal as forças militantes que guardam os portões entre cada vagão são onipresentes, mas os líderes rebeldes acreditam que as balas dos soldados acabaram há anos. A ideia então é vencê-los, seguir até a prisão, liberar Namgoong Mins, engenheiro viciado que criou os portões do trem, e, com sua ajuda, tomar a locomotiva, onde mora o criador e visionário do veículo que salvou a humanidade, um homem chamado de Wilford.

    Expresso do Amanhã acerta em cheio nas cenas de ação. Toda a esquisitice desse mundo de ficção científica é usada para ampliar a intensidade de cada combate corpo-a-corpo. As lutas são elegantes, mesmo quando centenas de pessoas lutam em espaços minúsculos com machados e facas. Entretanto, a violência não é gratuita – diversas cenas estão lá para nos lembrar que a questão é a sobrevivência e condições dignas, ou, em alguns casos, para reencontrar crianças levadas para a dianteira e nunca mais vistas. É um banho de sangue num universo Pulp, mas sempre com propósito.

    O filme se supera na criação do mundo, o congelamento da Terra é algo brutal e a forma de salvação ainda mais. Porém, são os vagões absurdamente diferentes, com figuras excêntricas, quase saídas de um filme de Terry Gilliam, que dão vida ao longa. A absurda diferença do vagão "salão de beleza", com madames bem vestidas, e o de pobreza total onde moram os rebeldes é um tapa na cara, que nos lembra também de nossa realidade.

    Toda dignidade é arrancada da população abandonada à própria sorte, pessoas que precisam comer estranhas barras de proteínas todo dia e, se desrespeitarem as regras, tem seus membros colocados para fora do veículo até que congelem. Dicotomias vistas, de leve, em séries como Jogos Vorazes, e absurdamente claras nesse filme.

    E não é só o lado social e os combates que chamam a atenção. O filme é lindo. Tomadas do mundo congelado são de tirar o fôlego, dos ambientes diversos do trem ainda mais. A fotografia é inspirada e muda conforme o tema do vagão. A trilha sonora é usada na medida certa e empolga. O roteiro funciona bem, apesar da simplicidade. Humor é usado na medida certa para não deixar o peso da ambientação matar a diversão. E a construção de personagens é tão boa quanto a do universo à sua volta; você acredita nas motivações de cada um, é possível entender suas escolhas e se importar com seus destinos.

    Claro que existem problemas, um deles é a participação de Tilda Swinton num personagem esquisito e com atuação fraca. Além de alguns efeitos especiais ficarem abaixo do esperado em determinadas cenas. O final pode gerar controvérsia também. Entretanto, são pequenos detalhes, que em nada atrapalham de fato essa corajosa produção.

    O Expresso Do Amanhã é tudo que Hollywood evita fazer, afinal, está presa demais a suas próprias fórmulas. Esse longa é visceral, reflexivo e inteligente, ambientado em um mundo caótico, onde as opções são poucas: lutar, fugir ou morrer. Enquanto a porrada come solta, a ambiguidade política mantém as coisas com o pé no chão e nos lembra da realidade por trás da ficção. Chris Evans está ótimo no papel principal, até por respirar desejo por justiça, algo que faz bem como Capitão América também. É claro que essa ficção-científica pode não agradar a todos, mas, com certeza, merece ser apreciada.