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    FADOS

    Musicalmente, filme de Carlos Saura é agradável, mas falta cinema, de fato
    Por Sérgio Alpendre
    15/10/2009

    Mesmo que tenha uma filmografia deficitária desde sempre, a Espanha já deu ao mundo diretores de primeira grandeza como Luis Buñuel, Victor Erice e Pedro Almodóvar. A importância de Carlos Saura para o cinema espanhol, se não chega a ser tão grande quanto a dos nomes citados, é inegável.

    Durante os anos de censura franquista, e mesmo durante os primeiros anos após a morte de Franco (em 1975), Saura impressionava com parábolas políticas ricas e muito bem construidas como Ana e os Lobos, A Prima Angélica, Cria Cuervos e Mamãe Faz Cem Anos. Fazia um cinema de sutilezas, com narrativas complicadas, que exigia bastante do espectador.

    Em 1982, descobriu a música flamenca, ou melhor, sua paixão cinematográfica por tal música. Assim, iniciou-se uma trilogia que compreendia Bodas de Sangue, Carmen e O Amor Bruxo. Mais tarde, essa trilogia receberia um adendo, num filme intitulado justamente Flamenco, que estava mais próximo de teatro filmado do que os outros.

    A partir deste filme, sua carreira deu uma guinada em direção ao filme-instalação, ou filme-tableau. Não importaria mais a narrativa, mas as sensações que as cores, sombras e músicas pudessem despertar. Nessa fase, realizou filmes dependentes demais do esmero visual, e para isso contou com o auxílio do famoso diretor de fotografia Vittorio Storaro, analisando o poder visual que outros estilos musicais oferecem. Tangos foi o primeiro a seguir o caminho aberto por Flamenco, e agora é a vez de Fados, que na verdade é de 2007, e só agora está sendo lançado no Brasil.

    A estrutura é a mesma. Telas espalhadas por um palco imenso, com ou sem projeções, diversos músicos introduzindo os diferentes estilos de fado, bem como as modas e derivados musicais. Fado de Lisboa, fado menor, modinhas, fado de Cabo Verde, fado flamenco, Alfacinha, até a música brasileira foi contemplada, com aparição de Carlinhos Brown, Chico Buarque, Caetano Veloso (apesar de que este canta um fado) e outros. Há ainda homenagens a grandes nomes do passado português.

    Musicalmente, Fados é rico e agradável de se ver. Mas precisava ser um filme, com fotografia retumbante de José Luis López-Linares e Eduardo Serra (colaborador habitual de Claude Chabrol)? Não seria mais modesto e prazeroso se fosse um programa de TV? Há algo de engessado nesse projeto musical da carreira de Saura, que se enfraquece a cada filme. É como se ele realizasse algo que já recebesse uma aprovação prévia, pois o fã de fado não vai descartá-lo por aspectos cinematográficos ausentes, e o melômano dificilmente vai reprovar um filme tão submisso à paixão musical. O cinéfilo, no entanto, vai sentir que falta uma entrega maior ao poder da sucessão das imagens, ao embate entre dois ou mais planos, ao que faz o cinema existir, em suma.