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    FALE COM ELA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Um dos maiores prazeres que se tem quando se assiste a um filme de Pedro Almodóvar é a surpresa do inusitado. A projeção começa, os personagens são apresentados aos poucos à platéia, a trama dá os seus primeiros passos e a cada nova cena o espectador se pergunta: «Onde ele vai? Quais os caminhos que Almodóvar tomará desta vez?». Diferente do produto hollywoodiano, um filme de Almodóvar é sempre surpreendente, «inadivinhável».

    Seu mais recente trabalho, Fale com Ela, também proporciona este prazer. O filme abre com um espetáculo de balé de Pina Bausch. Na platéia, dois homens que não se conhecem estão sentados lado a lado. Um deles chora; o outro olha admirado para o choro do primeiro. Em pouco tempo, o diretor revelará que o homem que chora é o jornalista Marco (o ator argentino Dario Grandinetti). E o que se admira é Benigno (Javier Cámara, de Lúcia e o Sexo), um dedicado enfermeiro. Cada um deles, de maneira totalmente diferente, se relaciona com uma mulher. Marco está envolvido com Lydia (Rosario Flores), uma toureira profissional que luta para conquistar seu espaço num universo machista. E Benigno nutre uma estranha relação de paixão por Alicia (Leonor Watling), uma bailiarina em coma. Mais não deve ser dito.

    É a partir destes quatro personagens que Almodóvar começa a desenhar seu painel de relacionamentos inusitados. Dedicação, loucura, amizade, obsessão, perdão, humor, amor, há muito de tudo nesta (mais uma vez) maravilhosa obra do cineasta. Sem pressa, a câmera passeia elegantemente pelos cenários que compõem os variados panos de fundo que caracterizam cada personagem. Os detalhes são revelados aos poucos, saboreados. Marco, Benigno, Lydia, Alicia e outros mais que surgirem são tratados com profundidade e realismo. São como pessoas reais que saem da tela bidimensional e assumem proporções humanas, tridimensionais e, por isso mesmo, capazes de atitudes imprevisíveis, como todos nós. O roteiro não se preocupa em fechar cada historinha, cada ponta deixada em aberto, cada laço desamarrado. Como na vida, nem tudo fica explicado e é ótimo que seja assim. Novamente na contramão de Hollywood, o roteiro de Almodóvar é tão rico que deixa lacunas que poderão ser preenchidas – talvez – num próximo filme, ou pela imaginação de cada um dos espectadores.

    A fotografia de Fale com Ela é de Javier Aguirresarobe, que já trabalhou com alguns dos mais prestigiados diretores de seu país, como Fernando Trueba e ganhou prestígio internacional por seu trabalho em Os Outros, de Alejandro Amenabar. A música é de Alberto Iglesias, o mesmo de A Flor do Meu Segredo, Carne Trêmula e Tudo Sobre Minha Mãe e inclui Cucurrucucu Paloma, na voz de Caetano Veloso e Por Toda a Minha Vida, interpretada por Elis Regina. Tudo isso faz de Fale com Ela não apenas «Un Film de Almodóvar», como costumeiramente aparece nos créditos, mas sim mais um grande filme de Almodóvar, um dos raros cineastas que continua a surpreender a cada novo trabalho.

    Imperdível.

    30 de outubro de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br