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    FAMÍLIA VENDE TUDO

    Filme não se dispõe a a entender seus personagens e os utiliza como matéria-prima do preconceito<br />
    Por Heitor Augusto
    23/09/2011

    Será mesmo que o público disposto a pagar os preços salgados dos ingressos de cinema, acrescido de algum combo de pipoca com refrigerante, rejeita qualquer comédia que não seja estrambótica? A questão do “gosto do público”, cuja tentativa de compreensão é sustentada tanto por dados de pesquisa quanto pela “chutologia”, é pertinente a Família Vende Tudo, quarto longa-metragem de Alain Fresnot.

    Pornochanchada – sem o pornô –, Zorra Total e comédia italiana se encontram nesse filme. Uma família pobre que rebola para sobrevier decide vender a filha para um cantor famoso e sair da miséria. Espera aí: rebobine, por favor: decide vender a filha para um cantor. É isso mesmo: como pacote de Trakinas no supermercado, Lindinha é oferecida para o primeiro endinheirado pronto a cair nas armadilhas de uma Maria Chuteira – no caso, uma Maria Violão, já que a vítima é o cantor Ivan Carlos. Sai o ser humano, entra a mercadoria. E está tudo bem, tudo ótimo.

    Família Vende Tudo pisa sem dó em todos os seus personagens. Vai até o cotidiano do pobre, trata com arrogância a família do título, faz troça e oferece isso em forma de filme. O evangélico é um babaca com seus cultos risíveis cheio de música; a lésbica é uma dike que quer transar com a gostosona (e burra) do filme, Luana Piovani; o cantor popular é um brega que precisa ser castigado pela Direção de Arte, disposta a dizer “olha como ele tem mau gosto”; o negro é um potencial bandido, como ilustra a sequência final.

    O filme não está disposto a entender seus personagens, mas em utilizá-los como matéria-prima do riso em cima do pré-conceito – e dele não escapa ninguém. A sensação é de que o propósito é tirar sarro de todos eles. E a comédia já provou que não precisa ser arrogante para se dar muito bem com a atmosfera da classe média baixa e tratar com humor a sobrevivência diária: basta assistir a dois episódios do longa coletivo 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos: Arroz com Feijão e Acende a Luz.

    O brega

    Em 2008, Carlos Reichenbach, mestre do cinema que tem se dedicado ao universo proletário desde Garotas do ABC, nos deliciou com Falsa Loura, filme que pulava do drama para a comédia com imensa facilidade e flertava com a estética do gosto popular, especialmente na música romântica, personificada pelos personagens de Maurício Mattar e Cauã Reymond.

    Por que a sensação de estranhamento com Família Vende Tudo não surge no filme de Reichenbach? Por que o correspondente do Ivan Carlos não é risível? Por que a ideia de príncipe encantado de Silmara (Rosane Mulholland) não provoca gargalhadas? Porque Falsa Loura não olha seus personagens de cima para baixo, estão todos no mesmo nível. Porque o filme respeita seus personagens.

    Outro exemplo: o documentário Faço de Mim o Que Quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, que se infiltra na cena brega recifense. As músicas de melodia simples e refrões-chiclete estão lá, assim como as roupas coloridas e coladas dos dançarinos. E por que esse filme não causa estranhamento? Porque também está no mesmo nível do que retrata (tanto que, já na primeira cena, a câmera é encaixada dentro do carrinho do camelô de CDs, ou seja, conotando que estamos todos nesse barco e o filme não vem sacanear um universo com seus códigos próprios.

    Vencedor de cinco prêmios no Cine PE 2011 – Atriz, Ator, Ator Coadjuvante, Direção de Arte e Trilha Sonora –, Família Vende Tudo tem humor chulo e expõe atores outrora grandiosos, como Lima Duarte ou Caco Ciocler, a situações constrangedores.