cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    FERRUGEM E OSSO

    Longa explora linguagem corporal com todas suas possibilidades e limitações para movimentar-se, lutar e viver<br /><br /><br />
    Por Cristina Tavelin
    01/05/2013

    Um filme sobre orcas, deficiência, boxe tailandês... Ferrugem e Osso aborda todos esses temas e deixa metade pelo caminho. Acima de tudo, a conexão entre eles está na linguagem do corpo humano – com suas possibilidades e limitações para movimentar-se, lutar, viver. Coescrito e dirigido por Jacques Audiard, o longa segue a mesma linha crua, exagerada e simbólica de seu antecessor, O Profeta.

    A princípio, o foco parece recair sobre Stéphanie, treinadora de baleias que sofre um acidente e tem as pernas amputadas. Mas a personagem vivida por Marion Cotillard (Piaf) acaba ficando em segundo plano – uma pena diante da capacidade de interpretação da atriz, cujo brilho resplandece até quando o conteúdo parece raso.

    Quem ganha fôlego durante a trama é Ali (Matthias Schoenaerts), com a personalidade relapsa explorada de forma meticulosa. Sua falta de compaixão aparece aos poucos, após criarmos empatia suficiente antes de julgá-lo por suas ações nocivas.

    O roteiro baseado no conto de Craig Davidson transita por universos tão distintos que resulta em uma história quase esquizofrênica, sensação ressaltada pelo número de acontecimentos em sequência. Ali tem um filho com uma traficante, vai morar na casa da irmã, arruma emprego como segurança em uma boate. Lá, conhece a treinadora de orcas no meio de uma briga. Tudo isso apenas no início.

    As primeiras passagens de Stéphanie amputada contam com o uso de efeitos especiais que tornam as cenas perfeitamente realistas. E os takes emblemáticos de lutas nas quais jorra sangue e perdem-se dentes endossam um clima de aflição. Davidson é muito comparado a Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta. Talvez a violência descarada possa remeter, por vezes, ao filme de David Fincher.

    Tal sentimento quebra-se de forma exagerada e intencional nas sequências de espetáculo. A trilha sonora oscilando entre introspecção e a agitação artificial de Katy Perry contribui para a aura bipolar do longa.

    Essa confusão prende o espectador por dois motivos: primeiro, pela curiosidade de saber onde tudo vai acabar; segundo, devido a excelente qualidade estética da produção. Envolta por uma fotografia sépia, a película explora os raios de sol e o reflexo do mar verde-água, criando um ar de nostalgia e marasmo de beleza singular.

    Fato é que a relação mais importante, entre Stéphanie e Ali, não ultrapassa a superfície. Talvez pelo próprio exagero da história, fique difícil assimilar algum vínculo entre os dois. A falta de apego dele acaba dando força à personagem de Marion, mas o “eu te amo” não convence de jeito nenhum.

    Ferrugem e Osso deve ser visto em metáforas, pela força de suas imagens, e não de forma literal. Vale apreciá-lo como a um quadro surrealista - sem buscar muita lógica além de seus símbolos e das sensações que transmite.