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    FLORBELA

    Simplista, longa fica na superfície de um retrato
    Por Ana Carolina Addario
    29/04/2014

    Retratar cinematograficamente as tramas da literatura é um desafio para qualquer diretor, já que os dois mundos nem sempre se encontram. Ainda assim, não é impossível fazer um trabalho bem-feito. Com relações mal aprofundadas e interpretação pouco convincente, Florbela demonstra reducionismo ao retratar a vida de Florbela Espanca, uma das maiores poetizas de todos os tempos.

    Na trama, Florbela não consegue levar uma vida de dona de casa e esposa na cidade de Matosinhos, região rural de Portugal. Seu desejo de descobertas a leva a encontrar o irmão Apeles na grande Lisboa, onde pode enfim reencontrar o mundo que tanto sonhava: o da liberdade. Embora o marido tente trazê-la de volta, e o irmão seja obrigado a partir, Florbela sente que encontrou seu lugar no meio do caos da capital. Entre a tentativa de ser uma esposa padrão e o desejo de ser uma mulher livre, vive as antagônicas emoções de um ser em conflito.

    O espírito livre de Florbela Espanca, historicamente conhecido pelas escolhas que fez na vida e pelo perfil de poemas que produziu, até surge caracterizado pela atuação Dalila Carmo. No entanto, há detalhes sobre o processo de amadurecimento da poetiza que parecem negligenciados pela produção. O corte de Vicente Alves do Ó parece se esforçar em fazer o público acreditar na imagem que escolheu de Florbela sem questionamentos: ela é rebelde e não aceita ser domada por um homem e pela sociedade machista. Apenas.

    Impossível não citar, neste sentido, o retrato de Stephen Daldry para a Virginia Woolf de As Horas, que dedicou uma de suas três narrativas ao processo de criação de Mrs. Dalloway, obra mais popular da escritora inglesa. Contemporâneas, Virginia e Florbela foram duas das mais importantes representantes de uma escola literária que retratava as inquietações da posição social da mulher no início do século XX.

    Embora extremamente relevante, a discussão em questão foi muito mais privilegiada em As Horas do que em Florbela, que em partes parece reduzir a escritora portuguesa a uma mulher obcecada pelo irmão e avessa à vida de casada em uma abordagem bastante simplista.

    A direção de Alves do Ó ousa com sucesso em algumas passagens da história da escritora. Os takes que revelam os sonhos de Florbela, seja dormindo ou acordada, são belos e interessantes. O uso das cores e a ambientação da atmosfera onírica provocam sensações em quem assiste. 

    Ainda assim, o filme mais peca do que acerta. Alguns dos temas mais caros da poesia da escritora como a erotização, a defesa da feminilidade e o panteísmo são completamente esquecidos. E seus poemas fazem falta ao longo do rolo: o espectador sai do cinema sem ouvir nenhum deles por completo. 

    Em suma, o filme de Alves do Ó pode ser considerado esteticamente bem-executado, mas sua beleza não garante que o público guarde a verdadeira impressão de quem foi Florbela Espanca e de sua contribuição à literatura. Para uma biografia, faltou mergulhar mais fundo na história e na identidade da poetisa. Só assim para alcançar os conflitos da mente e história de uma mulher tão à frente de seu tempo.