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    FLORES RARAS

    Filme está entre os melhores do diretor Bruno Barreto
    Por Roberto Guerra
    13/08/2013

    Em 1995 a produtora Lucy Barreto comprou os direitos do livro Flores Raras e Banalíssimas – A História de Lota de M. Soares e Elizabeth Bishop, de Carmen Lucia Oliveira. Seu filho, o cineasta Bruno Barreto, não se interessou em adaptá-lo para o cinema na época. O projeto foi oferecido a Hector Babenco, que também recusou. Passou-se então uma década até Bruno olhá-lo com outros olhos, motivado ao ver a ex-mulher, Amy Irving, interpretar um texto sobre Bishop. Decisão acertada do cineasta, que leva às telas certamente um dos melhores filmes de sua carreira.

    A produção é de encher os olhos em vários aspectos. Tem direção de arte refinada, refletido na decoração dos ambientes, no figurino muito bem pensado e na reconstrução dos hábitos da elite carioca dos anos 50 e 60. Os roteirista Matthew Chapman e Julie Sayres desenvolveram um arco dramático consistente para a trama, que trata da história de amor entre a arquiteta Lota Soares (Glória Pires), idealizadora do Parque do Flamengo, e da poetiza americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto), considerada nos meios literários uma das mais importantes do século 20.

    O longa começa nos Estados Unidos, com Bishop conversando num banco do Central Park com o amigo e escritor Robert Lowell (Treat Williams). Este a aconselha uma mudança de ares e, assim, em 1951 a poetiza chega ao Brasil onde é convidada pela amiga Mary Morse (Tracy Middendorff) a ficar hospedada na exuberante propriedade que compartilha com a namorada Lota. A estada era para durar uma semana, mas por causa de uma intoxicação alimentar, Bishop é convencida a ficar mais uns dias, que se transformam em anos quando ela e Lota se apaixonam.

    Conflito exposto, a tríade roteiro-atuação-direção se sai muito bem ao desenvolver com parcimônia o romance e a tensão paralela construída por um dos vértices do triângulo amoroso, Mary, preterida por Lota, que, pretendendo que ela não parta, sugere a adoção de uma criança. "Você quer comprar um bebê para que você possa ter um caso?" pergunta Mary em dado momento já sabendo a resposta. Ela fica, Lota adota o bebê e constrói na propriedade um escritório para que Bishop possa trabalhar sua poesia. Até seu desfecho, é a relação dessas mulheres, captada com sutileza por Barreto, que conduz o filme.

    O trio de atrizes está impecável, com destaque para a australiana Miranda Otto (da trilogia O Senhor dos Anéis), que consegue dar a devida dimensão à complexidade interior de Elizabeth Bishop sem apelos. Glória Pires, por sua vez, deve causar certa estranheza aos fãs acostumados com as mocinhas e vilãs que faz na TV. Lota é masculinizada, vibrante e cheia de energia, mas deixa aflorar sentimentos, e mesmo candura, de forma tênue, discreta. Um trabalho elogiável, ainda mais porque a atriz teve de interpretar em inglês, língua predominante no filme.

    Flores Raras perde uma pouco de sua boa dinâmica no quarto final, assumindo um tom episódico comum a cinebiografias. O desfecho, claramente, merecia um cuidado maior tendo em vista o desenvolvimento muito bem feito da relação das protagonistas ao longo do filme. Deslizes que, no entanto, não chegam a prejudicar essa história de amor espontânea e no tom certo.