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    FRANCES HA

    Gostoso de se ver, filme é uma das boas surpresas de 2013
    Por Roberto Guerra
    20/08/2013

    Este é um filme que joga por terra - com uma incrível dose de verdade a cada fotograma - o blablablá furado dos livros de autoajuda. Estes que pregam, entre outras bobagens generalistas, que devemos fazer o que amamos para nos realizarmos na vida. Sua protagonista, Frances (Greta Gerwig, também coautora do roteiro), ama dançar e sonha em se destacar na carreira. Mas talvez não tenha talento suficiente, ou mesmo sorte, e a vida real, como se sabe, não é nada condescendente.

    Frances tem 27 anos, mal consegue grana para dividir o aluguel e comporta-se ainda como uma jovem sonhadora um tanto alheia às dificuldades da vida adulta. Esse resquício de adolescência que sobrevive na mulher é destacado pelo roteiro em sua maneira despojada de vestir, no jeitão meio desengonçado e, principalmente, na relação com a melhor amiga Sophie (Mickey Sumner), de quem se recusa separar mesmo quando seu namorado propõe que vão morar juntos. A vida adulta se avizinha e Frances parece insistir em recusá-la.

    Ela também mente, mas sem motivo aparente, sem objetivo escuso, apenas tentando dar a impressão aos outros de ser mais importante e bem-sucedida do que realmente é. Para quem não a conhece bem, se apresenta como uma dançarina, mas jamais como uma aspirante malsucedida e sem um tostão no bolso. Paralelo ao fiasco na carreira, passa a vagar sem rumo atrás de um teto para viver depois que a amiga decide que vai morar com o noivo.

    O excelente estudo de personagem que faz o filme necessitava de uma atriz à altura para dar vida às idiossincrasias de Frances. E Greta Gerwig faz seu trabalho direitinho, levando ao público um tipo cheio de verdade, uma mulher de várias camadas (e não são todas assim?): impulsiva, engraçada, misteriosa, imprevisível, dúbia, mas jamais chata, apenas real. Tão real que não busca a simpatia do público deliberadamente e, por vezes, toma atitudes que condenamos.

    O filme do diretor Noah Baumbach é um deleite para os olhos. Filmado em preto e branco, leva às telas uma Nova York que parece brotar do psicológico dos personagens, de suas impressões cotidianas e banais. A decisão do cineasta de filmar em preto e branco dá um ar romantizado à história repleta de diálogos e sequências impagáveis, como quando Frances tem um cartão de crédito recusado e sai em disparada para achar um caixa eletrônico, sacar dinheiro e cumprir a promessa de pagar o jantar a um amigo.

    Frances Ha é um filme muito bem dirigido, gostoso de se ver, permeado da realidade implacável da vida adulta, mas conduzido com um tom otimista do começo ao fim. Se há esperança para Frances, há para todos nós. Mas uma perspectiva real, não a fantasia falaciosa dos livros de autoajuda.

    Em tempo: O Ha que acompanha o nome da protagonista no título do filme, você só vai descobrir o significado ao final – uma metáfora da incompletude dessa mulher cativante.