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    FRUITVALE STATION - A ÚLTIMA PARADA

    Longa é retrato necessário sobre racismo e violência
    Por Cristina Tavelin
    31/01/2014

    "Por que o senhor atirou em mim?" A frase que ainda ecoa na zona norte de São Paulo poderia muito bem ter sido dita por Oscar Grant ao ser alvejado por policiais em 2009, em São Francisco, nos EUA.

    Vencedor do Un Certain Regard em Cannes e do Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance, Fruitvale Station retrata o fatídico episódio no qual o jovem negro foi pego na estação de trem que dá nome ao filme após uma confusão na virada do ano. Algemado e humilhado, não teria possibilidade nem de se defender. Mas a polícia americana, assim como a brasileira, está sempre preparada para dar cabo a mais uma tragédia.

    O diretor estreante Ryan Coogler optou por começar o longa com imagens do incidente real que foram parar na internet. Uma boa escolha, pois assim até os menos inteirados com o ocorrido perdem as expectativas por um grand finale - a atrocidade já está na tela; agora, é questionar o por que da estupidez.

    Michael B. Jordan interpreta o protagonista dessa história. Conhecemos seu dia a dia, namorada e filha, pelas quais seu amor é evidente. Mas aqui há um problema fundamental. De Grant, por exemplo, só vemos aspectos considerados bons por um prisma bem conservador: ele parou de beber e fumar maconha, quer casar, é uma pessoa extremamente boa e educada o tempo todo; ou seja, pouco humano.

    Não que essas atitudes não tenham seu valor, mas os traços de mudança para melhor soam tão artificiais e americanos que fica difícil comprar a história. Porém, apesar do recorte de mártir e das atuações medianas - Octavia Spencer tem um desempenho muito questionável no papel da mãe de Grant-, o longa está repleto de pontos positivos.

    Um deles: o retrato do enraizamento social do racismo se dá de forma sutil, mas nem por isso menos incisiva. Quando o rapaz ajuda uma garota no mercado, recebe seu ar suspeito num primeiro momento. Após estabelecer um contato amigável, fica sabendo que o namorado dela é branco mas tem muitos amigos negros, informação complementada pela moça da seguinte forma: "Onde fui me meter?"

    Essa mesma garota aparecerá novamente na trama e percebe-se que não se trata de uma pessoa ruim. Porém, isso não a livra da culpa de ajudar a perpetuar um estereótipo preconceituoso. Assim como o policial que atirou em Grant, há responsabilidade dela nessa tragédia.

    Alguns personagens do início do filme voltam apenas na conclusão e causam um efeito interessante, de surpresa, sem perderem sua importância dentro da narrativa. Poderiam ter surgido mais vezes ao longo da obra, mas são reservados para realçar o impacto do final.

    A aproximação simbólica de determinadas cenas é outro dos aspectos positivos. No meio da trama, Grant se emociona ao ver um cachorro atropelado que acabara de encontrar na rua. A boca cheia de sangue do animal deixado ali para morrer volta à mente quando o próprio personagem acaba estirado no chão após levar o tiro. Uma associação profundamente emblemática. Já a cena final da mãe do rapaz denuncia traços de um sistema burocrático e desumanamente calculado.

    Um detalhe importante a se destacar é o erro grave na legenda para o português. Na discussão com os policiais, Grant é chamado de "nigger" em meio a outras ofensas, o que foi traduzido apenas como "arruaceiro" por aqui. Nem é necessário comentar o abismo de interpretação entre os dois termos.

    Fruitvale Station poderia ter sido um filme melhor caso o diretor tivesse conseguido se distanciar do peso emocional provocado pela história, não colocando a vítima como mártir - pois, no final das contas, não se trata de uma pessoa boa ter sido morta, e sim de uma pessoa para a qual não foi dado nem o direito de expressar sua índole por causa da cor.

    De qualquer forma, é uma obra extremamente necessária em uma época na qual o verbo atirar vem antes do verbo pensar.