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    GAINSBOURG - O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES

    Longa-metragem sobre ícone musical francês tem belas soluções pictóricas<br />
    Por Heitor Augusto
    04/07/2011

    Morrem as pessoas, mas permanecem os mitos. Um filme como Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres perpetua a aura do compositor popular mais amado na França dos anos 60, Serge Gainsbourg, o feioso que de tanto charme trouxe muitas divas para seu harém – entre elas Brigitte Bardot, Juliette Gréco e Jane Birkin.

    Depois de imortalizar dois de seus maiores ídolos musicais, falta apenas ao cinema francês realizar um filme sobre o chansonnier Charles Azsnavour, já que Atirem no Pianista não é propriamente uma cinebiografia. Se Piaf – Um Hino ao Amor se concentrou nos fatos trágicos de Edit e na potência dramática de sua música, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é um filme sobre a atmosfera de criação e representação do mundo – e do amor – na obra de Serge.

    Como ilustra o letreiro que surge nos créditos finais, atribuído ao diretor Joann Sfar: “Eu amo demais Gainsbourg para trazê-lo à realidade. Não são as verdades em torno dele que me interessam, mas suas mentiras”. Por não ser do cinema e sim um quadrinista, Sfar permitiu que sua cinebiografia tomasse certas licenças poéticas que a posicionam fora de um registro realista. Este é o pulo do gato.

    Aliás, seria um erro continuar citando Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres como uma “cinebiografia”. Um conto, como sugere o diretor quadrinista, é mais apropriado. Trabalha-se numa mistura do passado com o presente, de vozes reais com projeções subjetivas. Fatos? Isso fica para uma matéria jornalística, pois este filme propõe sentir Gainsbourg, não entendê-lo.

    Sfar recorre a uma composição pictórica do quadro. Há uma belíssima manipulação da cor e luz, além da maneira em como elas incidem sobre os objetos ou personagens em cena. A infância do compositor na França sob ocupação nazista é traduzida pelo modo em que o menino, então aspirante a pintor, representava o mundo e as musas desnudas: entre o tom pastel e alaranjado, quase num crepúsculo duma tarde de outono.

    A noite é azulada. O cigarro que não desgruda dos lábios ou dos dedos do compositor é quase um personagem à parte no filme. Tudo em Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é idealização ou projeção. Mas como pedir um registro ultrarrealista de um filme sobre um personagem que escreve uma canção-orgasmo como Je t'aime... moi non plus? Não adianta acusar o filme de "surreal" ou "não recupera o legado musical do artista": balela!

    Se o conto cinematográfico de Sfar é fiel a algo, este algo é a música. Faz-se um arco do estilo inicial de chanson para o rock dos anos 60, desembocando no jazz, no reggae e no eletrônico. Aliás, impagável a sequência em que Gainsbourg, já na Jamaica, canta Aux Armes et cetera, versão em reggae para A Marselhesa da França. Seguida de uma banana geral para a direita veterana de guerra.

    Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é uma divertida mentira que traz para a tela todos os alter-egos do compositor, da infância à velhice, do atrevimento juvenil ao alcoolismo dos trabalhos derradeiros. Seria um prazer se assim como os franceses nós, os brasileiros, pudéssemos ver um filme como esse sobre um personagem do nosso universo como Vinicius de Moraes. Imagine Vinicius conversando com o copo de uísque?