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    GANGUES DE NOVA YORK

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    É irônico: Scorsese e Grimaldi em Cinecittá, em Roma, filmando uma história que nada tem de italiana: Gangues de Nova York, uma superprodução de encher os olhos, as emoções e os sentidos. Tudo no filme é grandioso. Desde a ambição do projeto até as magníficas locações (construídas nos lendários estúdios de Cinecittá), que reproduzem a Nova York do século 19. Esqueça a ponte do Brooklyn, o Empire State, o Central Park, os bons restaurantes e a sofisticação da chamada "capital do mundo". A Nova York de Scorsese - cuidadosamente pesquisada em registros históricos - é suja, enlameada, selvagem, e violentamente dividida por gangues rivais que fazem o PCC parecer um bando de moleques de rua. A lei é corrupta e a ordem, inexistente.

    O filme começa com um embate mortal entre os Nativistas e os Coelhos Mortos. Os primeiros, comandados por Bill "O Açougueiro" Cutting (Daniel Day-Lewis, voltando ao cinema após cinco anos de ausência), são racistas, pregam a América para os americanos e repudiam a chegada dos imigrantes. O segundo grupo, sob o comando do Pastor Vallon (Liam Neeson), é formado por irlandeses e defende o desembarque de imigrantes como parte da formação da mão-de-obra que construirá o país. As duas gangues brigam - com hora, lugar e regras determinadas - pelo controle de uma região chamada Cinco Pontas. O embate é sanguinário. Na batalha, o pequeno Amsterdam vê seu pai, Vallon, morrer pelas mãos de Cutting. E no melhor estilo dos antigos faroestes, jura vingança.

    Dezesseis anos depois, o garoto cresce, passa a ser interpretado por Leonardo DiCaprio e se infiltra na gangue de Cutting para, cuidadosamente, tentar cumprir sua promessa de vendetta. E é aí que tudo começa.

    Mais do que simplesmente centralizar seu foco sobre um caso de vingança pessoal, Gangues de Nova York é um rico painel sobre as origens da civilização norte-americana. Se é que a palavra "civilização" cabe na barbárie descrita pelo filme. Sem um poder central atuante e com o próprio país dividido pela Guerra Civil, a cidade obedece apenas a uma única lei: a do mais forte. A corrupção política é a regra do jogo, os mais fracos buscam guarida nos violentamente poderosos, e o abismo entre as classes sociais é gigantesco. É uma época onde o governo cobra uma pequena fortuna para que os jovens das classes mais abastadas não sejam convocados para a guerra. Não cabe, no roteiro, nem um pingo daqueles falsos ideais de glória, heroísmo e patriotismo que os norte-americanos adoram ressaltar sempre que contam a sua história nas telas do cinema.

    Provavelmente por isso o filme seja um fracasso nas bilheterias dos EUA, onde faturou pouco mais que a metade de seu custo de US$ 97 milhões. Os americanos odeiam o espelho da verdade. E o filme ainda se dá ao luxo de ridicularizar o governo Bush, numa cena onde um governante corrupto afirma que "o que decide as eleições não são os votos, mas sim a apuração". Oportuno e divertido.

    Depois que leu o livro "Gangs of New York", escrito por Herbert Ashbury, em 1928, Scorsese se entusiasmou para produzir o filme o mais rápido possível. Porém, o gigantesco fracasso de O Portal do Paraíso, de 1980, desanimou os produtores a investir em qualquer outro épico que contasse de forma pessimista uma parte da história dos Estados Unidos. Vinte anos depois, juntando recursos italianos, holandeses, ingleses, alemães e americanos, e sob a benção da Miramax, o cineasta pôde finalmente concluir o seu complicado projeto. Uma empreitada de fôlego comandada por dois produtores de alto calibre: Alberto Grimaldi - de vários filmes de Fellini, Pasolini e Sérgio Leone - e Harvey Weinstein, de Chocolate, O Piano, A Vida é Bela, Gênio Indomável, Pulp Fiction e vários outros.

    Mais do que nunca, italianos e judeus se uniram para construir e desconstruir a poderosa cidade de Nova York.

    5 de fevereiro de 2003
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br