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    GAROTAS

    Diretora trata de assuntos complexos de forma sensível
    Por Daniel Reininger
    28/04/2015

    Céline Sciamma dirigiu apenas dois longas, Lírios D'água e Tomboy, e ambos se aprofundam no universo infanto-juvenil. Seu novo trabalho, Garotas, sobre um grupo de adolescentes dos subúrbios de Paris é cativante e oferece visão muitas vezes pungente e inquietante de como a identidade feminina é oprimida e controlada por um ambiente machista e repressor.

    Marieme (Karidja Toure) vive com sua ausente mãe e irmãos em um apertado apartamento, onde é rotineiramente espancada por seu irmão mais velho e dominador. Seu pai nunca é sequer mencionado. Inserida em um ambiente ameaçador, a garota é colocada contra a parede quando recebe um ultimato da escola, após repetir novamente de ano. Sua única reação é se defender: "não é culpa minha".

    Desolada, sua vida começa a mudar quando conhece Lady (Assa Syla), Fily (Mariétou Touré) e Adiatou (Lindsay Karamoh), gangue de garotas de seu bairro. Aos poucos, se distancia da família e mergulha em um mundo assustador, mas também libertador, e é no grupo que aprende lições valiosas para vida, como companheirismo e amor.

    Artisticamente filmado por Sciamma com cores frias e diversos tons de azul, Garotas tem sua maior virtude na direção de atores. Diversos membros do elenco não são profissionais e convencem em seus papeis dramáticos. Uma cena em especial é marcante pela espontaneidade das personagens, quando as quatro amigas dançam em um quarto de hotel e se sentem livres para falar e agir como quiserem. Na rua, no entanto, adotam pose mais dura e acabam por enfrentar outras gangues de garotas, além de desafiar atitudes machistas dos homens com quem convivem. Gradualmente, Marieme vai se transformando e aprende até mesmo a sorrir.

    A trilha sonora moderna e eletrônica funciona de forma orgânica com a trama, reforçando momentos importantes de transição na vida dessas meninas. O longa não quer só mostrar o dia a dia dessas garotas, como faz Boyhood: Da Infância À Juventude, também quer discutir como sexismo impede essas meninas de reivindicar seu espaço na sociedade. A crítica social e política se dá sem julgamentos e sem vitimizar suas personagens complexas e realistas.

    A forma como Marieme assume personalidades diferentes enquanto tenta encontrar seu lugar reforça essa crítica. As mudanças são também físicas, como mudança de cabelo, atitude e aparência. Além disso, a garota faz diversas escolhas que, embora façam sentido, parecerem destinadas a terminar em tragédia. Daí vem o maior problema do filme. Apesar de lento, a produção compensa ao construir personagens interessantes, com os quais nos importamos profundamente, entretanto, a forma brusca como essa jornada termina frustra o espectador e não causa o impacto intencionado pela diretora.

    Fato é: Celine Sciamma sabe tocar em assuntos complexos de maneira sensível, sem apelar para o melodrama. De forma madura, transmite de maneira clara sua mensagem: É preciso arriscar e, muitas vezes, errar para seguir adiante. É isso que faz da jornada dessas garotas algo inspirador.