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    GNOMEU E JULIETA

    Animação surprende pelos méritos cinematográficos e tom naturalmente cômico<br />
    Por Heitor Augusto
    02/03/2011

    É tudo igual, mas diferente. A rivalidade entre os Capuleto e os Montecchios mantém-se, mas eles são transformados na turma do Vermelho e do Azul. Verona, o palco original, transforma-se na Rua Verona, localizada em um bairro qualquer de Londres. A tragédia dá lugar à comédia e à redenção em Gnomeu e Julieta, a enésima adaptação da peça shakesperiana que consolidou o arquétipo do amor juvenil.

    Ah, faltou contar um detalhe: a história se passa em dois jardins de casas rivais e os protagonistas não são dois adolescentes, mas gnomos! Gnomeu e Julieta parte de um esperto argumento e mantém o fôlego durante seus 111 minutos, graças à colcha de referências ao próprio cinema e filmes de gênero, mas também ao que Shakespeare nos legou de estrutura narrativa.

    Gnomeu (voz de Daniel de Oliveira) é um simpático gnomo do chapéu azul. Por acidente, ele vê uma linda moça no topo de uma estopa e se apaixona, de cara. O gnomo vai ao encontro de Julieta lá no alto e, depois de uma sequência idílica, escorregam e caem numa piscina que limpa o disfarce de guerreiro dele e a roupa improvisada de ninja dela. A verdade os assusta: como pode uma Capuleto Vermelha se enamorar de um Montecchio Azul?

    Depois de apresentar seus personagens, Gnomeu e Julieta começa a desenrolar a lista de referências que, por serem tiradas de seu contexto original e recolocadas em situações atípicas, criam um efeito cômico poderoso. Por exemplo: um gnomo azul se preparando como Sylvester Stallone em Rambo ou uma corrida desleal de aparadores de grama (!) em vez das bigas de Ben-Hur.

    Uma das mais hilárias é a combinação do estereótipo do poderoso em filmes de ação: um aparador de grama turbinado cujo nome, Terrafirmator, remete a O Exterminador do Futuro, a narração ao vídeo cômico do Powerthirst e a inserção na cena a uma sequência de Tango e Cash.

    Saindo das referências e indo ao cômico, a animação de Kelly Asbury (um dos três diretores de Shrek 2) acerta ao não confundir falta de pudor nas piadas com provocação barata. As indiretas estão perfeitamente encaixadas na narrativa e têm função para o desenvolvimento do filme. Seja o humor físico inspirado em Os Três Patetas ou comentários discretos (como trocar o símbolo da maçã da Apple por uma banana).

    Cinematograficamente, Gnomeu e Julieta tem uma sequência de flashback de pura beleza, sem diálogos para atrapalhar e “traduzir” o que a imagem já da conta sozinha. Cena que lembra os momentos ternos de Toy Story, o primeiro.

    Pena que, provavelmente para conseguir se viabilizar, Gnomeu e Julieta precisa prender-se ao final feliz, procurando o consenso e redenção. Se dermos um voto de condescendência essa imperfeição que, na verdade, simboliza os tempos modernos, é de tirar o chapéu a solução que o roteiro encontra para propor um novo final à morte dos protagonistas shakesperianos.

    Gnomeu e Julieta surpreende pelo modo como conta cinematograficamente a história de amor e aventura destes gnomos e pela naturalidade do tom cômico. Esta animação não sente a obrigação de enfiar a piada goela abaixo do espectador. Felizmente.