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    GRANDES OLHOS

    Tim Burton evita exageros, mas se perde no tom
    Por Daniel Reininger
    29/01/2015

    Grandes Olhos, cinebiografia da artista norte-americana Margaret Keane dirigida por Tim Burton, não tenta ser realista e talvez Burton nem consiga mais fazer isso (mesmo se quisesse). O roteiro toma diversas liberdades e se afasta dos fatos para contar a bizarra história de como Walter Keane, marido da artista, a transformou em escrava e assumiu a autoria por seu trabalho numa época na qual mulheres artistas eram vistas com desconfiança. O tom artificial e cômico funciona bem por boa parte do longa, mas cria problemas sérios mais perto do final, quando o lado dramático toma conta.

    Para quem não conhece a pintora, ela é criadora de obras de crianças caracterizadas pelos olhos grandes e desproporcionais, fator que a transformou em relativa febre nos EUA dos anos 60. Provavelmente você já viu alguma imagem criada por ela, afinal Margaret foi uma das primeiras artistas a vender sua arte em massa com sucesso. Só que a sua história é muito mais sombria do que a de uma mulher tentando achar seu espaço em meio à sociedade machista dos anos 1950.

    Como esperado, o roteiro possui forte tom feminista, mas logo fica claro que esse aspecto é secundário, afinal o texto foca mais no relacionamento conturbado do casal de protagonistas. Curiosamente, esse mesmo relacionamento é mal explorado e pouco se sabe dos dois além do básico que uma pesquisa no Wikipédia poderia revelar. Burton, basicamente, cria uma história para entendermos claramente quem é a mocinha e quem é o bandido, sem mostrar nuances ou desenvolver os personagens além desses estereótipos.

    A pacífica Margaret é interpretada de forma soberba por Amy Adams, uma das injustiçadas do Oscar 2015 ao ficar de fora da premiação. Capaz de dar profundidade a uma personagem com pouco espaço para ir além do raso roteiro, a atriz consegue capturar toda a tristeza e decepção da pintora com facilidade, embora seu papel seja, por padrão, introspectivo e a beleza de sua atuação está naquilo que não é dito. Já o exagerado e charmoso Walter é trazido à vida por Christoph Waltz, que interpreta um personagem patético e difícil de levar a sério, mas que funciona para o tom inicial da obra.

    Conforme a trama avança, o filme decide explorar aspectos mais sombrios da história e se perde. O tom cômico e irreal da trama causa sensação de constrangimento quando a narrativa tenta abordar de forma mais séria a questão psicológica da relação disfuncional do casal. O confronto entre Margaret e Walter perto do fim não funciona, graças ao seu tom exageradamente melodramático e Waltz, em péssimo momento, se torna nada mais do que um vilão de conto de fadas, ainda mais raso do que se mostrou até então.

    Tecnicamente bem feito, Grandes Olhos foge da estética exagerada do diretor e, embora chegue a abordar o lugar das mulheres e dos artistas no mundo, não explora esses aspectos como deveria. Com narrativa irregular, o longa se perde ao não saber se pretende ser uma comédia ou drama, e a presença de personagens como o "dono da galeria rival" ou o "crítico de cinema carrancudo" são estereótipos que funcionam bem apenas com o lado mais engraçadinho da trama, mas que ficam deslocados quando esta fica séria. O filme funciona melhor quando explora a noção da arte produzida em massa, especialmente quando Burton usa o filme como reflexo de sua própria carreira. Pena que esses momentos sejam escassos.