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    HAMLET

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    A proposta não é das mais fáceis: transpor o eloqüente e elaborado texto de William Shakespeare para os dias atuais. Baz Luhrmann já havia tentado a mesma façanha em Romeu e Julieta, com resultados polêmicos, e agora Michael Almereyda (o mesmo diretor de Twister) repete a dose com Hamlet. Não se trata simplesmente de ambientar no ano 2000 uma história de traição familiar. A tarefa é bem mais árdua, já que a proposta deste novo Hamlet é manter, na medida do possível, o texto original do famoso bardo inglês com toda a sua pompa.

    Para quem não conhece, Hamlet é um príncipe dinamarquês que se finge de louco para tentar desmascarar a traição que seu tio cometeu contra o próprio rei. Para isso, ele conta com a ajuda do fantasma de seu pai. Numa leitura "soft", é a mesma história de O Rei Leão. Nesta nova versão, Dinamarca não é um país, mas sim uma grande corporação e toda a ação é transferida para Nova York.

    Para evitar o estranhamento que o texto do século 15 poderia provocar nas platéias do século 21, Almereyda optou por uma saída digna: a estilização. Luzes, locações, angulações de câmera, cenografia, vestuário, tudo tem um toque estilizado, como se estivesse acontecendo um passo além da realidade, quase num universo paralelo. A narrativa propõe um distanciamento, mais que saudável, necessário para que não se tornasse ridículo alguém declamar "ser ou não ser" num apartamento tecno em Nova York. Ao deixar bastante clara sua proposta de não realismo, Almereyda consegue dar personalidade própria ao seu filme. E mais: obtém um belo resultado visual que parece ter custado muito mais que os minguados US$ 2 milhões que o orçamento de Hamlet consumiu.

    À exceção de Bill Murray (um peixe fora d´água no papel de Polonius), o elenco está afiado e coeso. Kyle MacLachan (Twin Peaks) interpreta o traidor Claudius, enquanto o ator e dramaturgo Sam Shepard (Os Eleitos) vive, ou melhor, morre na pele do rei assassinado e seu posterior fantasma. Julia Stiles (de Louco por Você) e Diane Venora (que já fez um punhado de adaptações de Shakespeare para TV e cinema) convencem respectivamente como Ofélia e Gertrude. O atormentado Hamlet é vivido pelo bom Ethan Hawke (Sociedade dos Poetas Mortos e Gattaca).

    A pergunta que fica, porém, é por que novamente refilmar Hamlet? De Laurence Olivier a Mel Gibson, há mais de duas dezenas de adaptações cinematográficas sobre a mesma peça e esta não traz exatamente nenhuma nova contribuição. De qualquer maneira, clássico é clássico. Para o ano que vem, outra adaptação chegará às telas, desta vez com Campbell Scott no papel título e Lisa Gay Hamilton como sua amada Ofélia.

    Sem dúvida, há mais coisa entre o céu e a tela do que sonha nossa vã filosofia.

    13 de dezembro de 2000
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br