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    HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS

    Bom roteiro é econômico nos diálogos e farto em imagens cheias de simbolismo<br />
    Por Roberto Guerra
    03/07/2012

    “Aqui a gente se esquece de morrer”, diz Antônio, um dos personagens de Histórias que só Existem Quando Lembradas, em dado momento do filme. A frase contradiz o que se vê na tela. O lugar é um vilarejo fictício do Vale do Paraíba estacionado no tempo, ambiente onde a estreante Júlia Murat (filha da também cineasta Lúcia Murat) ambienta sua história que contrapõe velho e novo, passado e futuro, tradição e modernidade.

    No lugar tudo está morrendo, virando passado, inclusive seus moradores, mesmo que a frase do velho Antônio tente dissimular o óbvio. Ali a morte rege a vida de pessoas como Madalena (Sônia Guedes), padeira que vive presa à memória do marido falecido e enterrado no cemitério próximo à igreja. O local agora permanece trancado, como num esforço inútil de impedir a ida dos poucos que restam.

    Madalena passa seus dias numa rotina imutável, fazendo pão para o armazém de Antônio, caminhando por trilhos onde o trem já não passa há anos, limpando o portão do cemitério onde não se enterra mais ninguém, indo à missa diária e almoçando junto com os outros velhos habitantes da cidade. À noite, escreve cartas saudosas ao marido, palavras que ele nunca lerá.

    Sua rotina muda com a chegada da jovem fotógrafa Rita. De passagem, ela se hospeda na casa da idosa com quem convive por alguns dias. É da relação de poucas palavras que se estabelece entre as duas que Júlia tira o brilho de seu filme, um trabalho contemplativo e parcimonioso em sua narrativa que abre espaço para a reflexão da audiência, coisa rara hoje em dia. O roteiro bem construído é econômico nos diálogos e farto em imagens cheias de simbolismo, todas muito bem captadas. Filme equilibrado e enxuto, mérito difícil de identificar em diretores estreantes.

    A jovem Rita é a personificação da forasteira e como tal causa estranheza ao chegar. Sua juventude se contrapõe a tudo e a todos ali, mas o filme de Murat trata isso com muita sutileza, nada é explícito ou recai no lugar-comum do choque de gerações. Rita tampouco promove qualquer revolução no lugar e nas pessoas. Ao contrário, se mostra a princípio um tanto indiferente a todos e apenas interessada nos elementos estéticos que captura em suas câmeras.

    Apesar de nada ser evidente e explícito, o filme é permeado por um sentido de espera, uma tensão presente no dia-a-dia dos idosos que vivem a expectativa do esquecimento que se aproxima. Talvez as fotos de Rita sejam uma salvação, fazendo com suas histórias não sejam apagadas para sempre ao serem apreendidas no fotograma. A jovem, aos poucos, parece entender essa necessidade e seus registros fotográficos por vezes fundem num mesmo plano a imagem dos moradores às ruínas do lugar, eternizando ambos.

    Faltou à diretora dar mais dimensão à Rita, dando-lhe um passado que pudesse explicar sua presença ali e sinalizar seu futuro. Deixar a jovem numa espécie de limbo misterioso durante toda a trama enfraqueceu a personagem. O deslize, no entanto, não desmerece a boa estreia de Júlia Murat, que leva às telas uma produção acima de média para uma estreante em longa-metragem.

    Histórias que só Existem Quando Lembradas é um filme-prognóstico: e este parece prenunciar uma carreira promissora para a cineasta.