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    HOMEM-ARANHA

    Por Celso Sabadin
    17/05/2002

    Peter é um adolescente que, depois de ser picado por uma aranha geneticamente modificada, ganha poderes sobre-humanos e se transforma no super-herói Homem-Aranha. Quem não sabe disso é porque não estava no planeta Terra ultimamente. Os fãs de cinema e de quadrinhos não falam de outra coisa: o lançamento da superprodução Homem-Aranha e o impressionante recorde batido pelo filme nas bilheterias dos Estados Unidos. Nada menos que US$ 114 milhões de faturamento em apenas três dias de exibição, a maior quantia já registrada num único final de semana, em toda a história do cinema. US$ 26 milhões a mais que o primeiro final de semana de Titanic.

    O filme justifica todo este barulho? Em uma única palavra: sim. Homem-Aranha é uma deliciosa diversão em que tudo deu certo. Tobey Maguire (de Regras da Vida) está ótimo como o adolescente inseguro que praticamente se vê forçado pelas circunstâncias da vida a se transformar em herói. Ele treinou ioga, aeróbica, ciclismo e ginástica olímpica para o papel. Kirsten Dunst (de Entrevista Com o Vampiro) também convence como a garota dividida entre dois (ou mais) amores teenagers. O novato James Franco (que esteve em Nunca Fui Beijada) enche a tela com sua presença forte e visual atraente. Não por acaso, ganhou um Globo de Ouro por sua atuação no telefilme James Dean, em que viveu o papel-título. E o sempre eficiente Willem Dafoe (de A Sombra do Vampiro) faz um vilão à altura da caprichada produção. Afinal, não há um bom super-herói sem um ótimo supervilão.

    Mas certamente um bom elenco não funciona sozinho. É preciso a mão de um bom diretor. E, neste sentido, Homem-Aranha acaba marcando o ressurgimento glorioso de Sam Raimi, badalado cineasta que causou sensação nos anos 80 com A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante, mas que andava em baixa depois dos resultados apenas mornos de seus últimos trabalhos - Um Plano Simples, O Dom da Premonição e Por Amor.

    Da mesma forma, um bom diretor não pode fazer milagre se a trama for ruim. O que não acontece com Homem-Aranha. O ótimo roteiro foi escrito por David Koepp (que também participou das histórias de Jurassic Park, Pagamento Final, Missão Impossível e o aguardado O Quarto do Pânico), baseado nos personagens criados por Stan Lee (também produtor executivo do filme) e Steve Ditko.

    A união destes talentos conseguiu criar um filme raro: adolescente, sim, mas sem menosprezar a inteligência do público. De ação, mas com sentimentos profundos. Extremamente carismático. E com estonteantes efeitos especiais que servem de ferramentas para a trama e não ao contrário, como costuma acontecer. Efeitos inclusive de responsabilidade do "mago" John Dykstra, o mesmo de Guerra nas Estrelas, O Pequeno Stuart Little, Star Trek - O Filme e Batman Eternamente, entre vários outros.

    Provavelmente, o primeiro grande acerto do filme foi situar Peter Parker como um adolescente qualquer, igual a milhões de outros. Tímido, longe de ser o bam bam bam da turma, real. Ao se descobrir poderoso, Peter sente um misto de medo e empolgação. Não sabe lidar com as novidades do seu corpo, exatamente como todos os outros adolescentes. Até os não-aracnídeos. Tais características aproximam o personagem do público comum, ao mesmo tempo em que criam a tão necessária projeção. Afinal, quem jamais pensou em dar maravilhosos saltos acrobáticos pelos topos dos prédios? Os meninos pensam.

    O roteiro toma o precioso cuidado de não cair no maniqueísmo fácil que os filmes baseados em histórias em quadrinhos podem proporcionar. Ninguém é exatamente mocinho nem exatamente bandido. Peter é o herói da vez, sem dúvida, mas também sabe destilar sua crueldade se for preciso. Seu amigo, Harry, é um mauricinho em potencial que poderia se transformar num personagem intolerável nas mãos de um roteirista mediano. Mas não: ele tem dúvidas, conflitos, inseguranças, enfim, uma personalidade real e humana. Mary Jane se relaciona com quatro garotos durante o filme e, mesmo assim, consegue manter a dignidade típica da "namorada do mocinho". Papel difícil, mas real. E até o mega vilão Duende Verde tem um lado humano e bondoso que o atormenta constantemente.

    Nada de superficialidades fáceis. Homem-Aranha mostra uma visão muito especial do chamado "rito de passagem" da adolescência para a vida adulta. Se no início da ação Peter Parker é apenas um garoto platonicamente apaixonado por uma colega de classe (afinal, toda a história acontece por causa de uma garota, diz o personagem no início de sua narrativa), nos minutos finais ele vai ver sua realidade transformada - e transtornada - pelo peso do próprio crescimento, da própria responsabilidade legada de seus poderes. Para contrabalançar, o humor entra na dose certa. Inteligente, sem escracho. A tia fala para Peter que ele está estudando demais, trabalhando demais e, afinal, ele "não é o Super-Homem". A cena em que Peter tenta descobrir o que ele deve fazer para liberar suas poderosas teias é hilariante. A justificativa da bizarra roupa do herói é muito bem construída e argumentada.

    Enfim, um trabalho que dosa sabiamente humor, aventura, drama e romance e, por isso mesmo, acaba agradando aos mais variados tipos de público.

    13 de maio de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br