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    HOMENS E DEUSES

    Premiado em Cannes, drama constroi atmosfera com frades que precisam tomar decisão crucial<br />
    Por Heitor Augusto
    13/04/2011

    Assim como a maioria dos recentes filmes franceses que têm algo a dizer, Homens e Deuses esbarra na política e no ranço colonialista que a França deixou. Os estilos narrativos e os enredos variam: a personagem desorientada de Claire Denis na África (Minha Terra, África), o colchão mais militante e melodramático de Rachid Bouchareb (Dias de Glória), a sala de aula como microcosmo do país em Laurent Cantet (Entre os Muros da Escola) ou os burgueses confrontados de Michael Haneke (Caché).

    No caso de Xavier Beauvois, a religião é o berço narrativo. Afinal, trata-se de um grupo de oito monges cristãos em um país islâmico que atravessa mudanças políticas. O perigo aumenta quando uma milícia pressiona os frades a sair. Surge então a grande questão: eles devem fugir do perigo iminente e voltar para a França ou permanecer no local, correr risco de morte, mas não abandonar a população do vilarejo? Questão existencial que sustenta o enredo do filme.

    Homens e Deuses é um filme de atmosfera, quase uma comunhão entre obra e espectador, uma relação sacra que só poderá ser quebrada após a sessão. Ou seja, ir para o filme esperando apenas uma história bem contada é perder o melhor da experiência de se relacionar com Homens e Deuses.

    Na calmaria, tensão

    Num clima de tranqüilidade, acompanhamos a rotina dos monges. Frei Christian (Lambert Wilson, ator versátil) é o líder e uma espécie de mediador de conflitos. Luc (Michael Lonsdale, sensacional) é o médico que atende a comunidade. Christophe (Olivier Rabourdin) cuida do jardim, enquanto Michel (Xavier Maly) é o cozinheiro. Os outros são coadjuvantes com situações pontuais.

    Homem e natureza seguem uma relação harmônica naquele lugar que se parece com um Olimpo. A imensidão da paisagem, os sons dos animais, os cantos religiosos e a sensação de rotina dão uma atmosfera particular de calmaria ao filme. Há um porém: não estamos no céu, mas na Terra, com os problemas dos homens a serem resolvidos.

    Os frades que viviam numa bolha protegida são confrontados pelo mundo real. A tensão toma lugar da tranqüilidade. Homens e Deuses, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, toca num ponto nevrálgico: a dificuldade de viver em coerência com um discurso. Como esses frades, que são homens, não deuses, terão forças para viver numa realidade hostil o que dizem os ensinamentos religiosos?

    Então Beauvois fez um filme religioso? Não, um filme existencialista: como sustentar nossas escolhas? A atmosfera é sacra, quase ritualística. Um deleite aos olhos e aos ouvidos.

    Um mundo melhor?

    Quando toca em questões políticas, Homens e Deuses é tudo aquilo que Em Um Mundo Melhor, Oscar de Filme Estrangeiro em 2011, tenta ser, mas só consegue quando força a barra.

    A tensão na vida dos personagens, comum aos dois filmes, é traduzida com maior e menor talento. Com Beauvois, os olhos dos personagens e o profundo silêncio confrontado com os cantos religiosos nos deixa na ponta do pé. No caso de Susanne Bier, a tensão é estilizada, a câmera é chacoalhada indiscriminadamente e se faz questão de apontar o devir de um grande momento.

    Na criação de atmosfera, Homens e Deuses ainda tem uma cena excelente. Pressentindo o efeito que a grande decisão tomada pode causar, assistimos a uma sequência com os frades sentados à mesa, numa referência visual à pintura A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci.

    A diferença é que Da Vinci não tinha o recurso da montagem para alternar planos gerais com primeiros planos, coisa que o cinema permite e Beauvois usa sensivelmente para penetrar na alma dos oito frades. Isso acompanhado por O Balé dos Cisnes de Tchaikovsky, certeiro ao nos guiar neste percurso em direção a alma.

    Homens e Deuses é puro cinema, sem tiques narrativos ou estilizações banais, umas um discreto ensaio existencialista.