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    HORA DE VOLTAR

    Por Angélica Bito
    22/05/2009

    Jovem em crise volta à cidade natal e encontra a salvação em uma garota. Quantos filmes com este enredo você já viu? Alguns. Ainda mais entre os filmes independentes. Não sei o motivo, mas essas pessoas adoram um jovem em crise buscando sua identidade. Mas, calma: Hora de Voltar tem, sim, esse enredo. Também mergulha em todos os outros clichês do cinema independente americano - trilha sonora indie (com bandas de rock-and-roll americano independente), a última cena que mostra a solidão dos outros personagens (não estou entregando nada, isso sempre acontece), o anti-herói entorpecido com as auguras da vida. Mesmo assim, é possível afirmar que esta estréia de Zach Braff (mais conhecido como o médico bobo do seriado Scrubs) na condução de um longa consegue soar novo no meio de tantas mesmices. Não há perfeição por aqui, mas há aquela pontadinha, aquele nó na garganta diante de algumas cenas e diálogos belos dirigidos, roterizados e protagonizados por Braff.

    Logo na primeira cena, percebemos o ser inanimado que é Andrew Largeman. Criado em New Jersey, saiu de casa também para tentar a vida como ator em Los Angeles, mas o máximo que conseguiu foi o papel de um esportista retardado em um filme feito para a TV. O relacionamento com os pais se resume a recados na secretária eletrônica que nunca são respondidos. E ele vaga, como se estivesse anestesiado, entre o trabalho como garçom em um restaurante vietnamita e seu apartamento asséptico. Anestesiado é como ele se sente desde os nove anos, quando o pai psiquiatra (vivido por Ian Holm) passou a lhe receitar um coquetel de comprimidos à base de lítio. Assim, Andrew nunca sentiu muito da vida, nem as decepções nem as coisas excitantes. Graças aos remédios, ele vaga como um semi-autista.

    Mas, voltando à primeira cena, seu pai está ao telefone. Ou melhor, deixando um recado na secretária eletrônica. Ele pede que o filho volte para casa já que sua mãe acabada de morrer. Tetraplégica, afogou-se na banheira. O tipo de notícia mais doloroso que um filho pode receber é ouvido por Andrew de forma insípida. Não há reação. Lágrimas, revolta, nada. Ainda anestesiado, ele volta à cidade natal para acompanhar o enterro da mãe depois de nove anos afastado. Pela primeira vez sem a medicação, o protagonista começa, finalmente, a sentir algo, a reagir, sorrir, chorar e essa coisa toda. Além de reencontrar os amigos de infância Mark (Peter Sarsgaard) e Jesse (Armando Riesco), ainda conhece Sam (Natalie Portman), o tipo de garota capaz de mudar a vida de um cara como nosso herói. Não por ser bela (sim, ela é), ou por gostar de The Shins (lembra da história da trilha sonora indie?), mas por ser uma espécie de complemento à personalidade de Andrew. O par que encontramos uma vez na vida, sabe? Aquele que vem completo: gosta das mesmas músicas que você, entende suas maluquices e consegue ser tão louco quanto, até.

    Toda essa história que eu contei pode soar um pouco batida. Sim, ela é, mas a forma como Braff a conduz faz com que ela pareça incrivelmente nova. Há honestidade em Hora de Voltar (coisa rara atualmente) exatamente porque o roteiro é baseado nas experiências do próprio diretor e roteirista. É um filme simples, mas sincero, e é exatamente assim que conquista o espectador. Seguindo à risca as "regras" dos queridinhos do cinema independente americano, passou pelos EUA levando alguns prêmios importantes para qualquer produção do gênero: Grammy de Melhor Trilha Sonora (compilada por Braff), Melhor Filme de Estréia no Independent Spirit Award e fez sucesso no festival de Sundance, no qual foi indicado ao Grande Prêmio do Júri.