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    HORAS DE VERÃO

    Por Sérgio Alpendre
    29/06/2009

    Uma casa de veraneio, uma reunião familiar, uma artista que sente a morte por perto. Assim segue o mais recente filme de Olivier Assayas (Traição em Hong Kong), com a leveza de uma brisa litorânea.

    Horas de Verão fala justamente das coisas que passam, dos momentos de felicidade que são impossíveis de se registrar por completo. Eles ficam na lembrança. Algumas obras de arte podem captar algo daqueles momentos, uma filigrana que passava despercebida, e que insiste em se manifestar, como na gravura que o tio de Frédéric (Charles Berling) desenhou aproveitando a vista de uma janela.

    Uma casa de verão pode ter muita história. Pode esconder segredos, camuflar paixões, incitar cumplicidade, como a que existe entre a caseira Éloïse (Isabelle Sadoyan), a mais graciosa das personagens, e a artista Héléne (Edith Scob), ou entre Fréderic e os quadros de Corot. Pode, também, significar a união de uma família, a única possibilidade de sua existência, um oásis para onde os irmãos vão quando se cansam da difícil vida urbana.

    “É preciso conservar a casa”, diz Frédéric, o irmão mais velho, “para que nossos filhos decidam o que fazer com ela”. É voto vencido. Jérémie (Jérémie Renier) vai trabalhar na China. Adrienne (Juliette Binoche) vai se casar com um norte-americano e viverá nos Estados Unidos. Fréderic não culpa ninguém, mas vê seu passado ruir com a iminente venda da casa.

    Uma festa promovida pelos seus filhos será a triste despedida. As lembranças não terão mais o cenário para sustentá-las, mas somente a memória. Os frutos serão colhidos por outra família, o lago banhará outros filhos e netos, a arte que foi feita e guardada ali passará a ser exibida em museus, a história para todos, como diz a mulher de Frédéric a certa altura. As coisas passam, a vida segue. Implacável. As novas gerações parecem eleger novos valores, se interessar por outras coisas - música barulhenta, tecnologia - que herdaram de uma geração intermediária. Arte deve ir para o museu. A vida passa, mas a lembrança dos frutos colhidos traz lágrimas.

    A festa se assemelha àquela de Água Fria, filmada pelo próprio Assayas em 1994. O olhar atencioso para a juventude é o mesmo. O espaço dado aos sentimentos desses jovens confusos também. Só o que mudou foi a maturidade do diretor, que alcança com este filme de beleza incomum um dos pontos mais altos de sua carreira.