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    IDA

    Filme evidencia cicatrizes abertas pelo holocausto
    Por Gustavo Assumpção
    25/12/2014

    Se faltava algo para o polonês Pawel Pawlikowski se firmar como o principal cineasta em atividade em seu país, agora não falta mais. Depois de filmes como Meu Amor De Verão e Estranha Obsessão, o diretor já coleciona mais de trinta prêmios pelo drama Ida, seu filme mais denso e favoritíssimo ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro deste ano.

    O longa é um olhar do diretor sobre a história de seu próprio país, mais precisamente sobre o período em que a Polônia esteve sob o domínio nazista. O enraizamento do antissemitismo nas relações cotidianas, o embate entre crença e liberdade, tudo permeia o roteiro complexo e nada óbvio escrito pelo diretor e por sua parceira Rebecca Lenkiewicz.

    Ida acompanha Anna (Agata Trzebuchowska), uma noviça que está no processo final para se tornar freira. Sua madre superiora exige que ela retorne à sua terra natal para conhecer seu único laço familiar ainda existente, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Durante a visita ela será confrontada com sua própria história, suas raízes e o passado sombrio que a levou a viver em convento desde a infância.

    Nesta viagem de descoberta - real e simbólica -, o diretor preferiu um tom sóbrio, ampliado pela fotografia em preto e branco que afasta o longa de sua época, fazendo-o parecer muito mais velho do que realmente é. Há quem diga que os enquadramentos nada simplificados e o retrato contido aproxime o filme do movimento modernista que povoou o cinema europeu nos anos 60.

    Pawlikowski é inteligente, sensível e parece estar disposto a mastigar gêneros. Há uma pitada de road movie nessa jornada, que tenta nos tornar parte do processo de descoberta de seus personagens. As atrizes principais conseguem trazer poder e dor para os seus papéis. Kulesza capta a amargura e o cinismo de Wanda, enquanto a estreante Trzebuchowska contrapõe com calma e graça os diálogos propositalmente inconclusivos do longa.

    Quebrando seus silêncios e as memórias incompletas dessas duas personagens com clássicos do saxofonista John Coltrane, o diretor constrói um filme que parece um cartão postal trágico, um pequeno curativo sobre uma cicatriz que não se fecha no imaginário dos poloneses. A dor ainda permanece e Ida é um sintoma disso.