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    ILHA DO MEDO

    Suspense pega o caminho mais fácil: enganar em vez de pôr em xeque<br />
    Por Heitor Augusto
    31/03/2010

    Martin Scorsese, sempre hábil em apontar a crueldade do ser humano sem deixar de manter as esperanças, aposta, em Ilha do Medo, na loucura e em como o sonho é o único jeito de se proteger do mundo real.

    É um suspense em torno da procura do policial Teddy (Leonardo DiCaprio) por uma paciente perdida em um manicômio na Shutter Island. Se olharmos para trás em busca dos suspenses de alto nível, o que os une é a habilidade de acrescentar os elementos gradualmente na trama, criar as pontas de dúvida que nos mantenham interessados no filme, descobrir novas características dos personagens para, com tudo isso, chegar a um final que responda às questões desenvolvidas.

    O problema de Ilha do Medo é pegar o atalho mais fácil, opção que estranha a um diretor como Scorsese, tão dedicado a contar uma história. Em vez de sugerir e desmentir, nos fazer acreditar e logo depois questionar, o roteiro de Laeta Kalogridis (Alexandre) articula uma história, nos faz acreditar completamente para, no final, desmenti-la por inteiro.

    Só faltou Scorsese sair detrás das câmeras para dizer “olha só, trouxa, como te peguei! Pegadinha do Malandro!”. Não é necessariamente um problema enganar um espectador, mas, para um craque do cinema como ele é, esperamos mais do que um filme-pegadinha.

    Num suspense, as dúvidas surgem ao longo do caminho. Nós seguimos uma leitura, depois embarcamos em outra, descobrimos que a primeira estava errada, aí surge uma virada que traz novo entendimento e o caminho começa a afunilar até desembocar no final. Mas Ilha do Medo prefere pular a dificuldade em construir uma história com mais entroncamentos e criar apenas uma grande surpresa. Afinal, é mais fácil fazer só uma virada em vez de várias pequenas mudanças de rumo, né?

    Claro que, no meio do caminho, Scorsese mostra como, mesmo em situações triviais, ainda pensa com carinho os movimentos de câmera, a direção de atores e de arte. Existem boas sequências de tensão dentro do manicômio e outras passagens bregas e bonitas que revelam os sonhos assustadores de Teddy.

    O diretor escalou um ótimo elenco para sustentar a trama. Leonardo DiCaprio, o protagonista, é correto; Mark Ruffalo, o policial parceiro, faz uma caracterização interessante; Patricia Clarckson tem uma iluminada e rápida participação; os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow são soberanos como vilões.

    Também fica como mensagem a complexidade dos atalhos da mente humana ao lidar com um trauma e como somos hábeis em criar uma mentira fácil de acreditar. Sem contar que Scorsese filma bem, o que não é tão fácil de achar por aí.

    Agora, Ilha do Medo está a léguas de ser um grande filme, especialmente porque o roteiro pega o caminho mais fácil entre os filmes de suspense: enganar em vez de pôr em dúvida.