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    INFÂNCIA CLANDESTINA

    Como a maioria dos filmes políticos argentinos, este se destaca por explorar vivências pessoais em um contexto
    Por Roberto Guerra
    05/12/2012

    Quantos filmes argentinos já trataram da sangrenta ditadura militar vivida pelo país? Muitos e, a maioria deles, muito bons. Nem por isso os vizinhos acham demais uma nova produção a abordar o tema, desde que seja valorosa e diferenciada como Infância Clandestina. Por aqui, ao contrário, não temos nem tantos nem tão bons filmes sobre nossos anos de chumbo e, talvez por este último motivo, não aguentamos mais ver um longa nacional tratar do tema.

    Mas deixemos a provocação reflexiva de lado e vamos falar desta ótima coprodução entre Argentina e Brasil, dirigida por Benjamín Ávila e muito bem roteirizada pelo brasileiro Marcelo Müller. A história gira em torno de um menino de 11 anos que vive na clandestinidade com seus pais, guerrilheiros decididos a voltar à Argentina no final da década de 70 por acharem ser hora de intensificar a luta armada. Juan, que agora passa a se chamar Ernesto, entra no país cruzando a fronteira com o Brasil passando-se por filho de um casal de brasileiros. Já na Argentina, quem vai buscá-lo é o irmão do pai, o tio Beto, melhor personagem do filme e com grande influência sobre o menino.

    Dos méritos de Infância Clandestina, como dos longas políticos argentinos em geral, está o objetivo de destacar pessoas e não fatos. Conjuntura aqui é pano de fundo e o que importa mesmo é como gente e suas idiossincrasias conviveram com tais acontecimentos em suas vidas. O filme habilmente trata menos da ditadura argentina e mais das centenas de militantes que decidiram constituir família em meio ao horror desses tempos. Pais e mães que, mesmo em terreno inóspito, e sem abdicar do compromisso militante, amaram seus filhos e a eles dedicaram o carinho e dedicação que lhes foi possível.

    Juan, agora Ernesto, tem de conviver com os dilemas da transição entre a infância e a pré-adolescência e mais a violência e medo que cercam seus familiares. Ao passo que vive as descobertas do primeiro amor como todo menino, tem de lidar em casa com reunião secretas e pais manejando armas. Existe aqui, no entanto, todo um trato na naturalidade como isso acontece, como seria na vida real. Fruto de um roteiro muito bem lapidado por Müller. A preocupação foi que esses personagens e suas vivências se tornassem críveis aos olhos do público, o que o filme consegue com êxito e sem pressa.

    Infância Clandestina acerta a mão também por não tratar seu personagem principal como uma criança comumente vista pela ótica míope de um adulto. Juan, mesmo que ainda carregando resquícios da singeleza infantil, está plenamente ciente do que ocorre, da luta que move seus pais, dos medos que atravessam, de como deve dissimular para levar o disfarce familiar a cabo e das preocupações de avó materna. Por sinal, numa das melhores e mais tensas cenas do filme, sua mãe e avó travam confronto verbal que resume, em poucos e preciosos minutos, o embate de gerações e as tensões vividas na época. Um primor de sequência composta de ótimas atuações e diálogos redondos e verossímeis.

    Este é um filme sobre amor e não sobre a ditadura argentina. Juan vivencia ao longo da produção suas diferentes formas: vive a pureza do primeiro amor juvenil e está inserido numa família repleta de dedicação. Afeição que, de diferentes formas, vêm de seus pais, da irmã pequena, da avó e do impagável tio Beto. Por outro lado, experimenta tudo aquilo que se contrapõem a qualquer forma de fraternidade: a violência, seja ela proveniente de uma ditadura militar ou de onde for.

    Belo e cativante, Infância Clandestina é dirigido com sensibilidade por Ávila e tem atuações apuradas de Ernesto Alterio (o tio Beto), Natalia Oreiro (mãe de Juan) e Cesar Troncoso (pai de Juan, que em 2013 será visto no brasileiro Faroeste Cabloco no papel de Pablo). O candidato argentino a vaga no Oscar é mais uma produção a atrapalhar as pretensões brasileiras de emplacar O Palhaço entre os selecionados na categoria Filme Estrangeiro. E não sem virtudes.