cineclick-logo
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • Fale Conosco|Política de Privacidade
    © 2010-2020 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    INQUIETOS

    Gus Van Sant conduz com sensibilidade drama protagonizado por Alice de Tim Burton<br />
    Por Heitor Augusto
    21/11/2011
    6/10

    INQUIETOS

    Drama

    Gus Van Sant é um dos poucos diretores de Hollywood a agradar gregos e troianos com o mesmo filme. Isso porque ele pode ser, na mesma produção, radical e conservador, ora puxando o espectador para uma entrega intensa e uma caminhada na direção do filme, ora facilitando sua vida como mero consumidor de imagens.

    Milk - A Voz da Igualdade, que deu o Oscar de atuação a Sean Penn, já fora assim: conseguiu narrar para um público amplo a trajetória de uma figura ímpar na defesa dos direitos dos homossexuais. Inquietos tem a mesma caligrafia: passagens muito interessantes e sensíveis ao lado de outras banais e caretas.

    Fala-se do fim nesse filme. Não como tragédia, mas sim renascimento. Refundação de uma pessoa. É pela morte, pela quebra e ruptura que se faz possível encontrar vida, recomeço, outros caminhos. Numa história potencialmente tristonha, Van Sant retira a melancolia de cena e põe o sorriso contido. Enquanto Las Von Trier decide fazer um filme apenas sobre a melancolia, Van Sant elimina seus traços.

    Primeiro fazendo uma inversão. Inquietos começa com Enoch (Henry Hopper, filho do lendário e problemático ator Dennis Hopper, morto em 2010) frequentando funerais. O que o motiva a tal? Que fascinação que a morte exerce sobre ele? Quem surge para aparentemente responder essas questões é Annabel (Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton), garota descolada que o conhece num pomposo enterro.

    Essa aparente condução masculina do enredo mostrar-se-á falsa: o filme é contado sob a perspectiva dela, não dele. É a bizarra e terna relação de fraternidade entre Enoch e Annabel, amparada pelo fantasma de um kamikaze da Segunda Guerra Mundial (Ryo Kase) que sustenta Inquietos

    São dois personagens empáticos num filme anticadavérico. Justifica-se a abordagem pelo próprio título. Confrontados por uma situação imobilizante – a morte –, ele e ela decidem viver.

    Inquietos cresce se observado pelo que não é e pelos erros que poderia ter cometido. Não é melodramático e apelativo, não perde o tom certo na condução, não entrega logo no começo o que será o filme. O maior exemplo está na sequencia final, ótima resolução de roteiro e montagem. Lá na metade da história já estávamos conscientes de que Inquietos só poderia terminar daquele jeito, mas o filme encontra uma saída feliz e esperta ao passar pelo chavão.

    Mas há, porém, uma sensível diferença entre este e os outros longas mais arriscados e interessantes de Van Sant – como Mala Noche, Garotos de Programa, Elefante ou Últimos Dias: é um filme de comunicação, não de experiência, o que implica escolhas narrativas mais conservadores. Talvez porque Van Sant, em vez de falar da experiência da morte como dor, tenha optado por contá-la como esperança.

    Inquietos tem carisma, equilíbrio, coerência. Como cinema, menos interessante, o que não interfere em sua sensibilidade, charme e ternura.