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    INSOLAÇÃO

    Filme de Daniela Thomas e Felipe Hirsch é para ser sentido, não entendido<br />
    Por Celso Sabadin
    16/03/2010

    Se ao invés de cinema, Insolação fosse literatura, ele não seria prosa. Seria poesia. E talvez uma poesia bastante experimental. Como cinema, Insolação não é aventura, nem comédia, nem drama, nem suspense... Será uma dor de cabeça para os atendentes de videolocadoras que precisam colocar os filmes em prateleiras pré-batizadas. E já está sendo também uma perturbação para os redatores de guias e roteiros culturais. Motivo: não há como escrever uma sinopse convencional para o filme.

    Por estes – e outros mais – motivos, Insolação perturba, incomoda. Tem o poder de irritar ou encantar, dependendo de quem o está assistindo. São cenas esteticamente belas, de enquadramentos preciosos, mas que exigem uma incrível capacidade de abstração por parte do espectador, para que sejam efetivamente decifradas. Se é que elas são de fato decodificáveis. Há o menino que se encanta por uma garota mais velha, enquanto a relação de seus pais desmorona. Há o velho tecendo considerações filosóficas sobre a vida. A misteriosa mulher insaciável de sexo. Tudo rodado em ambientações áridas, desoladas – quase extraterrestres - e abandonadas de Brasília, como se verifica na projeção dos créditos finais.

    Embaladas por uma bela e tranqüila trilha sonora feita à base de sopros e cordas, as falas e diálogos seguem a proposta poética-experimental: “Os mais novos têm a pele jovem, e não sabem nada, ao contrário dos idosos, que têm a pele envelhecida... e não sabem nada”. Ou: “Os seus pais ainda estão juntos?” Resposta: “O meu pai está.” São quase hai-kais, situações fragmentadas despreocupadas com a linearidade ou com a narrativa tradicional.

    O elenco invejável traz Paulo José, Antonio Medeiros, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, André Frateschi, Maria Luisa Mendonça e Leandra Leal, entre outros, sempre no chamado “um tom cima”, em textos mais recitativos que propriamente interpretados. E nem poderia ser diferente. Primeiro porque o filme não busca o registro realista, e sim o poético. E segundo porque Insolação é o resultado do trabalho de quatro nomes identificados não exatamente com o cinema, mas sim com o teatro: os diretores Felipe Hirsch e Daniela Thomas, e os roteiristas Will Eno, Sam Lipsyte. Destas oito mãos, só as de Daniela já haviam tomado contato com o cinema, principalmente ao escreverem e dirigirem, em parceria com Walter Salles, os ótimos Terra Estrangeira, O Primeiro Dia e Linha de Passe. Os demais são estreantes na tela.

    Por ser uma obra tão aberta, dá margem aos mais variados tipos de interpretação. Saboreiam-se momentos de desolação, de busca, de amores partidos, de dores e reflexões. É uma viagem sensorial na qual se embarca, ou não, sem meio termo.

    Insolação não é para ser entendido, mas sim sentido. Para o Bem e para o Mal.