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    INVERSÃO

    Estética da "câmera tremida" prejudica trama policial que poderia ter dado certo
    Por Roberto Guerra
    23/05/2011

    Certa feita disse Buñuel: “Pode-se discutir o conteúdo de um filme, sua estética (se ele tiver uma), seu estilo, sua tendência moral. Mas ele não deve nunca entediar.” Lembrei da frase ao assistir à Inversão, thriller policial de Edu Felistoque, que antes havia codirigido o documentário Musicagen (2008) e Soluções e Soluções (2000). É irônico ver uma produção trabalhada para não cansar nem mesmo o mais fleumático dos espectadores resvalar no tédio justamente por conta de sua estética frenética.

    Não me oponho à famigerada - e hoje recorrente – “câmera tremida” como efeito estético, mas quando seu uso é exagerado, não justificado e mal aplicado o resultado é o prejuízo dos enquadramentos e o cansaço visual – e também mental – do espectador. E em Inversão a câmera não para, não sossega, parece tomada por uma esquizofrenia que aliada à montagem de cortes rápidos chega ao limite do suportável.

    É interessante notar que o filme dispensava o expediente. Diferente de algumas bobagens hollywoodianas que camuflam a falta de enredo atrás de movimentos de câmera frenéticos e cortes de videoclipe, em Inversão temos um roteiro relativamente bem-cuidado e uma trama interessante sendo desenvolvida.

    O cenário é a cidade de São Paulo na época dos ataques orquestrados pelo PCC às forças de segurança. Neste pano de fundo se desenrola o sequestro de um empresário por um bando de criminosos e o drama pessoal de uma jovem delegada - pressionada a resolver o caso - ao passo que tentar manter a integridade num meio machista e deteriorado.

    Bem amarrada, a história já seria suficiente para prender a atenção do espectador. A opção estética de Felistoque e sua câmera inquieta acabam jogando por terra o que poderia ter sido um bom misto de filme policial com thriller psicológico. Por outro lado, tem-se a impressão de se estar diante de um material bruto – onde se vislumbram qualidades -, mas que nitidamente carece de uma lapidada: são cenas que sobram, diálogos desnecessários, feedbacks em excesso.

    Do elenco feminino o destaque é a atriz Marisol Ribeiro, que vive a delegada Juliana. Segura, ela desenvolve bem a tensão conflituosa por qual passa sua personagem. Já Gisele Itié, uma das líderes da quadrilha de sequestradores, não convence ninguém de que é uma criminosa. Mas no quesito atuação, o mérito fica para Rodrigo Brassolotto e Wander Wildner, que interpretam a dupla de policiais corruptos sob o comando da delegada Juliana. Os dois sozinhos já seriam material humano suficiente para um novo filme.

    O conceito de “inversão” do título do longa vai além da inversão de valores da sociedade e é quase literal no desfecho da trama. No mais, a produção tem a clara pretensão de levar o espectador à reflexão sobre o caos social, a violência urbana e a hipocrisia que permeiam a sociedade em seus vários extratos. Infelizmente, o diretor não atentou para o fato que câmera furiosa mal trabalhada - e exagerada - vai na contramão da contemplação reflexiva.